domingo, 6 de janeiro de 2008

a praça aqui perto de casa: 25 de dezembro, 01 de janeiro

Tive vontade de fotografar a praça que fica aqui perto de casa nos dias de Natal e Primeiro de Janeiro. Em ambas as ocasiões, ao passar por lá, acabara de chover e o lugar estava vazio: crianças não brincavam no parque de diversões, ninguém caminhava por suas alamedas, e os bancos de madeira permaneciam abandonados. Debaixo do céu – que vergava-se, baixo e cinzento, sobre a abóbada formada pelas árvores – os globos nos postes de iluminação irradiavam um calor que oscilava entre o vermelho e o amarelo, e, no entanto, ainda não era noite. Devido à intensidade das chuvas, galhos e folhas recobriam o chão, e o cheiro que pairava (macio, amortecido) era o de terra molhada e ferrugem (este último cheiro era mais intenso perto dos brinquedos do parque de diversões). O chafariz, sem uso havia anos, transbordara e, com uma camada de folhas castanhas boiando sobre a superfície da água, mais parecia um charco. Também havia, junto à banca de jornal, caixas de madeiras antes usadas para o estoque de frutas. É que, nas semanas que antecedem o natal, a praça costuma ser tomada por comerciantes que vendem os frutos da estação (uvas, pêssegos, ameixas gordas e vermelhas, caquis), mas agora, finda a época de vender, as caixas tinham sido abandonadas e dentro de algumas permaneciam frutos apodrecidos, de modo que das caixas erguia-se um perfume doce, muito doce.
No dia 25 de dezembro, o contato com a praça foi de ternura e alguma comoção. Até então vinha conseguindo me manter fiel à euforia que é característica das festas no final do ano. Entretanto, ao caminhar pela praça, era como se enfim ultrapassasse as fronteiras da melancolia, instalando em mim a sensação e o medo da perda. Em outras palavras: mais do que perceber a precariedade e a miséria daquele cenário, veio em mim a certeza de que nunca voltaria a encontrar uma paisagem que me seria tão familiar – era como se me soubesse dentro daquele globo de neve que Kane, após murmurar rosebud, deixa quebrar-se no chão. Nos dias seguintes permaneci dentro dessa nostalgia banhada pela neve, e gostei de passear pela cidade que agora, após o natal, estava vazia. Podia contemplar as casas, os telhados, os poucos campanários, e até amontoados de árvores em lugares de intenso trâfego e frenesi. O ápice da tristeza foi no dia 31 de dezembro, quando, no caminho até a casa da minha namorada, passei no prédio onde ela trabalhara e onde eu a apanhara nas primeiras semanas de namoro. Há alguns meses o lugar fora posto abaixo, para dar lugar a um novo edifício, mas até então não havia compreendido o que isso significava. Deste canteiro de obras, rumei para a casa da namorada. As ruas estavam iluminadas, na distância espocavam fogos (e depois vinha um silêncio espectral) e as próprias pessoas que passavam gritando, alegres e alucinadas dentro dos seus carros, pareciam morrer tão logo viravam a esquina e as suas vozes deixavam de ser ouvidas. Depois, já acompanhado da namorada, tratei de me distrair e até deixei de lado a melancolia; talvez isso tenha acontecido porque nos comportamos como num dia normal: na tevê vimos os programas habituais, tivemos as mesmas conversas e tratamos de exorcizar de nós qualquer sentimento em relação ao passado e ao futuro. Quando, à meia-noite, todas as bombas explodiram, não me senti miserável, e conservaria esse estado de espírito caso não tivesse visitado a praça no dia seguinte. Ela ainda era o globo com a paisagem imersa na neve que Kane segurara, mas agora eu tinha a sensação de que ele já havia murmurado rosebud, deixando o vidro quebrar-se no chão. Foi isso o que pensei enquanto caminhava para casa. Nos dias seguintes, tratei de voltar à rotina, a melancolia evaporou e continuei a freqüentar os lugares que meu espírito havia dado como perdidos. O estranho, penso, é que não sinto como se tivesse encenado uma contradição.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

janeiro

Se me lembro de janeiro, lembro-me daquelas tardes de chuva que vieram após um mês de dezembro especialmente luminoso. Na verdade, o ano anterior, do começo ao fim, fora cravejado de luzes e triunfos, mas agora – chegado o ano novo – a rapariga que me acompanhara em tais conquistas descia ao mar e eu nem sequer suspeitava que nunca regressaria. Nos primeiros dias, ainda estive tomado pelo enlevo e pelo perfume do amor. A solidão inicial teve como marca longos passeios pela cidade, pois, se me lembro bem, chovia até às quatro ou cinco da tarde; depois disso nuvens estacionavam sobre os prédios, e por vezes era como caminhar à sombra de um muro onde floresciam ervas suaves e olorosas (mal sabia eu que, à sombra dos jazigos, também germinavam flores tão perfumadas quanto). Durante os passeios, andava por ruas e praças cobertas por pétalas-galhos-folhas arrancados durante as tempestades, e quase não conseguia ouvir o ecoar dos meus próprios passos. Procurava manter o espírito e, sobretudo, o corpo longe dos devaneios, embora ambos tenham me traído um par de vezes. O espírito me atraiçoou quando, durante uma caminhada, tive a suspeita de que a rapariga não descera ao mar, de que continuava na cidade, e, a cada esquina percorrida, sobresaltava-me ante a possibilidade de reencontrá-la. A traição do corpo, por sua vez, veio na esteira de uma confusão decorrente de um jogo de espelhos. Aconteceu durante uma das tardes menos solitárias, quando, na companhia de um amigo, jogava no salão de bilhar da rua santiago. Lá fora chovia aos cântaros e a umidade espalhava-se como mofo no ar, grudando nas paredes e na carne. Na mesa ao lado, um grupo de jovens divertia-se e, entre eles, havia uma miúda que julguei idêntica àquela que fugira de mim. Apenas por isso, a desejei com uma violência criminosa, e foi nesse ponto que os passeios pela cidade começaram a ganhar um aspecto de pesadelo, sobretudo quando não chovia ou parava de chover – aí descia sobre os telhados uma claridade fina e ardente como um chicote, e o mormaço que se erguia ganhava um cheiro de água podre. Quando isso acontecia, o relógio costumava marcar sete, quase oito horas, e eu gostava de passar as noites em casa, afundado na espera. Ainda me lembro da horrível sensação de deixar o amigo em casa e depois voltar sozinho no carro. Era preciso seguir pela avenida do cemitério de um extremo a outro, em meio a um trânsito que impedia o veículo de ultrapassar os quarenta quilômetros horários. O sol que caía que sobre a cidade – o último sol do dia, que vinha após horas e horas de chuva – era irisado, mas muito quente, brutal. Entrava oblíquo no carro e me maltratava o rosto e revolvia em mim aquela imprecisa, mas duradoura, sensação de amor fracassado e vida desperdiçada. Em casa, procurava refúgio em qualquer paz que encontrasse, por mais barata que fosse, e escrevia poemas, alguns até publicáveis, sobre viagens até o mar e o esplendor do mormaço e o peso das folhas de bananeiras encharcadas pelas tempestades.

sábado, 22 de dezembro de 2007

quase ternura

Poderia falar da dureza do meu coração, mas, como é época de festas, falo da ternura que existe nele e que sobe à tona perante animais indefesos, raparigas que almoçam ou vão sozinhas ao cinema, e até comerciantes às portas da falência. Estes últimos parecem estar em todos os lugares: apenas em meu bairro, nos arredores da praça do teatro, há três lojas de roupas que – não sei se por estupidez ou necessidade – continuam com as suas atividades. O primeiro estabelecimento tem um nome tão estranho e pouco comercial que ainda hoje não consegui decorar: é algo como Calopicista ou Capilocista, embora nenhuma dessas palavras conste no dicionário ao qual costumo recorrer. O referido comércio abriu as suas portas há dois anos e nunca vi um cliente lá dentro. Há uma vitrine e os manequins que a habitam usam roupas que ficariam bem naqueles que pretendem viajar até o litoral. Para além dos manequins, há uma escrivaninha de repartição pública e, atrás dessa escrivaninha, uma mulher costuma dedicar os seus dias à prática do crochê. Em outras tardes, uma mulher mais jovem perambula por entre as roupas expostas com uma criança no colo. Ademais, todo o quarteirão em que fica a loja é melancólico. Ao lado, existe um asilo e, durante o crepúsculo, é comum ver dezenas de velhos respirando a fresca do entardecer afundados nas suas cadeiras de rodas. Numa das esquinas fica uma sorveteria que, talvez por um motivo de economia, só acende as suas luzes no momento em que as sombras da tarde assumem a densidade das trevas noturnas. Do outro lado da rua fica a igreja, diante da qual um pipoqueiro tem uma relação esquizofrênica com as pombas, ora alimentado-as com milho, ora recebendo-as com pedradas.
A segunda loja nem sequer tem nome e se presta ao comércio de roupas usadas. A tática usada pela dona do estabelecimento, para atrair clientes, está mais próxima da mendicância do que das práticas comerciais. Ela espera passar diante da loja uma pessoa e a aborda e, suplicante, diz que, apesar de as roupas serem velhas, são de boa qualidade e não aceita negativas como respostas, de modo que o eleito não escapa sem ser rude ou sem, ao menos, conhecer a loja. Por sua vez, o terceiro estabelecimento pretende ser um Calopicista-Capilocista com mais classe, cuja elegância já pode ser lida na fachada: Sursum Corda. Acredito que o emprego do latim seja um provável vestígio dos conhecimentos adquiridos durantes os anos em que a proprietária da loja freqüentou cursos pré-vestibulares, período no qual fomos colegas de classe. Este passado em comum não deixa de ser uma relação de parentesco, o que torna ainda mais aflitiva, ante os meus olhos, a queda do Sursum Corda. Não que tenhamos sido amigos. Ela nunca esteve mais próxima de mim do que uma dessas estrelas que, em noites de inverno, irradiam um fulgor frio e esverdeado. Uma vez deixada no passado, às vezes acontecia de eu me lembrar com encanto e imprecisão dos seus longos e ondulados cabelos castanhos, a pele mais morena do que pálida, modos que se pretendiam aristocráticos ao andar, falar, talvez até ao se entregar aos homens – e ao vê-la após anos, mais do que o enervante reencontro com uma beleza que deveria permanecer nos mausoléus da memória, percebo que tal beleza permaneceu apenas para esmorecer aos poucos, e, ainda mais do que isso, percebo que sou reconhecido por esse encanto crepuscular e muitas vezes, ao passar diante da loja, sinto-me como um personagem de Dostoiévski que está exilado na Alemanha ou França. Ele passeia por uma cidade e observa o desespero de uma russa linda, nobre, e, no entanto, falida. A jovem percebe que está diante de um russo, nota que ele também sofre dos nervos, que não tem consigo resistir às vigarices dos alemães ou franceses, e quase se joga aos pés do homem. Paizinho, me ajuda, paizinho, e o homem, guiado pelo sonambulismo de quem se desloca entre dois delírios apenas diz Coração ao Alto, minha menina, Coração ao Alto, não posso dispor de nem sequer uma moeda. Assim segue caminho, retomando a lucidez alguns metros adiante, ou melhor, retomando uma lucidez que se situa entre o desespero, a impotência e o escárnio. Olha para trás. A mulher desapareceu, mas, diante de uma outra loja, um velho corcunda, vestido de vermelho, dança e faz caretas com o rosto na tentativa de atrair clientes. Eles estão tendo o que merecem, vocifera alguém com um senso de justiça mais próximo do divino. O russo concorda e, tentando rir, inicia um solilóquio que vai desencadear mais febre e delírio. Sim, eles estão tendo o que merecem.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

balões de pensamentos

Durante anos pensei que o meu gosto por perambular pela cidade viera de filmes como A Doce Vida, A Noite, O Medo do Goleiro Diante do Pênalti, ou até Depois de Horas – histórias de sujeitos fadados à errância e à contemplação. Mas a verdade é que, mentindo para mim mesmo, fingia ignorar que as caminhadas pela cidade haviam tido início bem antes de eu assistir aos filmes citados. Contava onze ou doze anos quando comecei a voltar andando da escola. Destes primeiros passeios, lembro-me do aroma de biscoitos de polvilho que se erguia acima dos telhados de um fábrica de bolachas. Alguns quarteirões adiante – na mesma rua, a última construção antes do rio – funcionava um bar que exalava um nauseante cheiro de frango cozinhado na gordura pobre. Neste bar, dentro da obscuridade que se dissolvia numa claridade vespertina e poeirenta, homens bebiam e jogavam bilhar.

Não mudei o caminho até os anos do colegial, quando, após um assalto ocorrido nas imediações da fábrica de cerveja, o pai me aconselhou a voltar pelas ruas do centro. Não sei se a luz também envelhece – talvez as reminiscências estejam influenciadas pela memória de uma tarde em junho, um desses dias menos frios do inverno, quando o céu permanece sem nuvens e a luminosidade que desce não agride o rosto – mas lembro de caminhar por ruas muito claras nas primeiras vezes que regressei da escola pelo centro. No último ano do colegial eu e um amigo íamos até a Praça do Teatro, sentávamos num banco e lá permanecíamos por horas, rindo dos homens que víamos passar. Numa tarde este meu amigo tinha dinheiro e resolvemos gastá-lo em cerveja. Foram poucas garrafas, mas a minha inexperiência de então causou uma respeitável vertigem, e na hora de volta para casa só conseguia manter o equilíbrio se andasse em linha reta, muito depressa, e nunca parando. Uma façanha impossível de ser realizada no tumulto das ruas da cidade velha.

No primeiro dia de aulas no cursinho, ao descobrir que só sairia da escola após as sete da noite – e com vergonha de pedir que o pai viesse me buscar -, fiquei tão inseguro que por pouco não entrei em desespero. Uma garota bonita (robusta além da conta, mas bonita) notou a minha apreensão e me ensinou – a mim, que estava tão viciado nas caminhadas que desconhecia qualquer outro meio de ir do Ponto A ao Ponto B – que ônibus deveria pegar. Hoje percebo que ela tinha por mim um encantamento maternal, e um mínimo de habilidade com raparigas poderia transformar esse enlevo em tensão e depois triunfo sexual. Por fim o meu sangue aristocrático falou mais alto e, como um lorde passeia pelas floridas alameadas do seu castelo após caçar faisões, resolvi desbravar as ruas da cidade velha. Logo passei a acreditar que, quanto mais tarde voltava para casa, mais incríveis e singulares eram as minhas aventuras.

Este é o prelúdio da história dos passeios pela cidade. Quando pensava nisso, apontava como causadores dos meus anseios a inquietação juvenil aliada à influência de filmes italianos dos anos 50 e 60. Como disse no começo, a causa não é esta, e só fui perceber o meu engano quando, meses atrás, reencontrei uma caixa velha gibis – quase todos do Homem-Aranha – comprados durante a infância. Nestas aventuras, o que mais me fascinava (ainda fascina) era observar a solitária e insólita rotina daquele herói que vivia num miserável apartamento na Rua Chelsea. Vilões como o Escorpião e o Doutor Octopus eram temíveis, e, quando apareciam, só podiam ser derrotados após um grandioso embate - no entanto, as minhas aventuras prediletas eram aquelas que mostravam o aracnídeo pulando de telhado em telhado durante toda a madrugada; em todos os quadrinhos os balões de pensamentos (uma técnica narrativa que não vejo mais) revelavam as angústias e as confusões do herói, sendo que, entre uma ponderação e outra, ora o Homem-Aranha (no alto de um prédio) observava o frenesi de Nova York, ora enfrentava batedores de carteira.
Hoje as aventuras já não seguem este padrão. A política de tolerância zero praticamente erradicou os batedores de carteiras das ruas de Nova York (e junto com estes pequenos marginais, ficaram abolidos as ruas sujas, a luz néon brilhando na fachada de hotéis ou restaurantes chineses, o nevoiro que tomava conta dos becos) e o Homem-Aranha já não é um solitário: está casado e agora luta na companhia de outros heróis (e todos, good guys e bad guys, o chamam pelo nome: não é mais maldito aracnídeo, é Peter), livrando o planeta de ameças mais aterradoras que o aquecimento global. Ao pensar nisso, a melancolia que experimento não é diferente da que sinto quando percebo que andar por aí já não é tão divertido. Envelhecer é triste, mas ao menos oferece o conforto de ser uma tristeza necessária, mas qual a necessidade de lançar um herói nas garras de um ocaso durante o qual ele deixa de ser um herói? Quantos Césares fui (Na alma, e com alguma verdade; / Na imaginação, e com alguma justiça; / Na inteligência, e com alguma razão) , diz aquele poema de Álvaro de Campos, e talvez só seja possível subir à altura dos césares andando solitário por ruas manchadas de néon – quando os inimigos não são mais do que batedores de carteiras e com um levíssimo (passível de desgarrar-se a qualquer instante, perdendo-se nas distâncias celestiais) balão de pensamento pairando acima de nossas enfadonhas existências.

sábado, 8 de dezembro de 2007

o cheiro do napalm pela manhã

Talvez aquele ano não tenha sido o pior de todos. Talvez tenha sido apenas o ano da derrota ou, antes, o ano em que vivi segundo os padrões de uma vida impossível: li muito, escrevi mais ainda, e no resto do tempo vagava pela cidade, entre a insônia da carne e o sonambulismo do espírito. Por isso não me esqueço das garotas que conheci nesses meses. Eu tinha o corpo aberto para qualquer uma delas, e talvez estivesse disposto a pagar qualquer preço por um amor, ou ao menos por sua sombra, que não daria em nada. Depois vieram os meses da regeneração, da vergonha também. Como foi possível viver daquele jeito? Como foi possível passar tantas manhãs e tardes sem estudar? Como foi possível ter o espírito marcado pela promiscuidade e escapar com a carne incólume? E em meio a isso, em meio ao desprezo pelas excentricidades de outrora, colhi o amor ou ao menos a sua sombra. Foi brando, como se o próprio presente fosse visto através das névoas de uma futura saudade, como se toda a cidade (todos os prédios, e as árvores, e as luzes - tudo isso, menos a carne) tivesse se tornado incorpórea, como se eu habitasse o corpo de um morto e perdurasse no crepúsculo por mais alguns minutos. E então também isso passou e tudo se assentou assim em meu espírito: um ano ruim, um ano bom, e o ano presente, embora o agora também fosse cercado por fronteiras incertas, vaporosas. Foi assim que, quinta-feira, aproveitei a noite para dar um passeio pela cidade. Quando a testa ficou úmida de suor - e quando o vento gelado da noite tocou esse suor e trouxe uma sensação de frescor - foi como se eu movesse dentro dos limites daquele ano que ficou marcasdo como ruim, o pior de todos, mas agora me sentia alegre e queria percorrer todas as velhas esquinas e entrar em todos os velhos lugares. Até me lembrei de Bill Kilgore: o tenente-coronel de Apocalipse Now!, aquele que usava chapéu de cowboy e que, ao observar os seus soldados surfando nas ondas de uma praia devastada, aspira o ar da manhã e, com o seu sotaque texano, diz adorar o cheiro do napalm pela manhã. Tem um cheiro de vitória.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

a amiga americana

Em O Amigo Americano, Tom Ripley vive em Hamburgo como um negociante de artes. Na verdade, Ripley é um falsário entre falsários: além de vender as obras assinadas por um pintor que finge estar morto, ele próprio assumiu o nome-rosto-exílio de um homem cuja identidade foi roubada e que nunca poderá voltar para casa (o que há de errado com um cowboy em Hamburgo? – indaga Ripley, trajado como se vivesse nos ermos do Texas ou Missouri, e a pergunta dá a medida de seu deslocamento e desespero). É na condição de negociante de artes que ele conhece Jonathan Zimmerman: este é um homem honesto, um antigo restaurador, hoje emoldurador – e também um sujeito que sofre de uma incomum doença no sangue, e por conta disso talvez esteja fadado a morte. Quando apresentado a Tom Ripley, Jonathan recusa-se a apertar a sua mão. Com um tom de desprezo na voz, diz eu já ouvi falar de você. Apenas por isso, em retaliação a essa demonstração de asco, Ripley decide arruinar a existência de Jonathan Zimmermam. Ao ser questionado pelo próprio Jonathan sobre as suas motivações, ele relembra o que se passou quando foram apresentados e afirma é um motivo bom o bastante, não?

O filme eu vi há algumas semanas, mas esta frase – é um motivo bom o bastante, não? – foi lembrada por mim ontem. Eu escutava Dean Martin e pensava na época em que ainda não escutava Dean Martin; a época na qual pensava que Martin tinha sido apenas um ator cujo melhor papel fora o do bêbado no faroeste Onde Começa O Inferno (Rio Bravo). Foi há anos, quando ainda estudava Direito. Uma colega tinha uma irmã que vivia nos Estados Unidos; uma cidade bem ao norte, na fronteira com o Canadá, e uma vez por mês ela mandava fotos da neve e às vezes das flores que cresciam na neve. Esta menina que vivia na fronteira com o Canadá tinha um nome estrangeiro, também isso me atraiu. Naqueles anos ainda impúberes eu realmente acreditava que teria mais sorte com um rapariga de nome Isabelle, ao passo que um abismo intrasponível me separava das isabelas ou isabéis. Depois, e não me lembro por que falávamos sobre isso, a minha colega disse que a sua irmã de nome estrangeiro gostava de ouvir Dean Martin. Por isso comecei a gostar dela – porque ela ouvia Dean Martin – e se alguém me perguntasse sobre os meus motivos eu bem que poderia parafrasear Tom Ripley: é um motivo bom o bastante, não?


Meses depois a rapariga de nome estrangeiro voltou para o sul e a conheci. Não só o nariz, também a sua boca era fina e pequena e, no entanto, docemente sanguínea. A pele era clara, de uma palidez igualemente forasteira, enquanto os cabelos ondulados mal passavam da altura do pescoço. Aliás, devo dizer que, debaixo do sol, o corpo dessa menina sofria metamorfoses fulgurantes: o tom castanho (e petrificado) dos olhos assumia uma liquidez cor de mel; o rosto, apesar de continuar claro, afogueava-se e a boca vermelha e singela chegava a se intumescer, quase a desabrochar; e os cabelos ganhavam um brilho avermelhado. Com tudo isso, os meus motivos, que já eram bons o suficiente, tornaram-se incontestáveis. Todavia, não foi das mais vitoriosas a relação que tive com ela. Descobri que o abismo que me separa da isabelas também me separa das isabelles e demais miúdas de palidez e nome estrangeiros. Está certo, trocamos algumas palavras, até risos, e durante uma tarde de terça-feira fomos ao cinema. A despeito de não ser muito, também não é pouco. E não é por despeito que digo que, nas semanas que sucederam o seu retorno, ela viveu o ápice de sua beleza que florescera no norte e que agora vinha ao sul. A doce e branda claridade de abril-maio não tardou em ir embora e, no outono seguinte, quando retornou, já não colheu qualquer metamorfose. O que me leva a pensar que talvez seja ainda mais breve o esplendor das isabelles que ouvem Dean Martin e que se transformam sob a luz e que às vezes fotografam as flores que crescem em meio à neve.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

passeios

Pode ser que a falta de fôlego (tão logo alcanço a Praça do Teatro, sinto ardentes e irrespiráveis o ar e a luz) não seja sinal de velhice. Talvez a cidade já não me seduza como antes. Muitas vezes sinto que todas as esquinas e caminhos foram desbravados, de modo que não é possível ir adiante. Seria o mesmo que tentar prorrogar o período das grandes descobertas e navegações até os séculos XIX e XX. Não, a rota para as Índias já foi traçada, a América já foi encontrada – todas as caravelas lançaram-se ao mar, naufragaram as que não alcançaram o seu destino, e o Encoberto permanece encoberto.

Disse tudo isso a um amigo, semanas atrás, e ele me respondeu que é sempre possível encontrar um novo atalho para fronteiras bárbaras. Sursum corda!

Concordei, mas dias depois – era tarde de sábado, fui até o quintal e olhei para o sol a fim de me decidir, e o que percebi foi o vagoroso, quase impercetível fluir das horas escaldantes, o cheiro da terra queimada, e os ventos pesados e espessos que mal agitavam as folhas das bananeiras – usei o carro para ir até o centro comprar um livro.

Enquanto dirigia, lembrei-me dos dias que vieram após a morte da avó. Quando eu passava as manhãs – junto da mãe – rexemendo nos armários, decidindo o que seria guardado e que iria para o lixo. Um dos achados mais insólitos foi um verde olho de vidro que apareceu no fundo de uma gaveta. Também encontrei inúmeros dentes dentro de uma caixa de sabonete e, ao lado, uma dentadura de pelo menos 30 anos. Depois, deparei-me com uma enferrujada câmera fotográfica; o revólver que pertencera ao avô na década de 50; porcelana e cristal em excelente estado; caixas (de lata) de biscoitos. À medida que revirava tudo isso, sentia-me sujo, como se tocasse objetos dignos de repugnância. No entanto, isso não era o pior. O pior era levar os armários e demais mobílias (comidas por cupins) até o quintal e, com uma marreta, reduzi-las a pequenos pedaços de madeira, depois enfiar tudo numa carriola e jogar na caçamba que fora alugada. Após um dia de trabalho assim – que terminava pouco depois das cinco horas – era impossível permanecer em casa. Eu saía e ia muito além das praças do Teatro e da Catedral. Andava até os limites da cidade velha. Até os quarteirões onde os prédios acabavam e, em meio a poeira e a lama dos terrenos baldios, começavam novamente residências.

Do dia da morte da avó (início de outubro) até as festas em dezembro quase não choveu. Se me recordo bem, o estio terminou no entardecer da véspera de natal. Eu e o pai tínhamos saído para alimentar os animais da praça quando um aguaceiro nos apanhou. Escondemo-nos debaixo de uma marquise. A chuva não chegava a ser forte, mas os pingos eram grossos, e, vez ou outra, um sopro de vento soltava um frêmito das copas das árvores. O ocaso não foi mais do que uma penumbra cinza pousando sobre os telhados, como se as nuvens estivessem cada vez mais baixas. As luzes nos postes acenderam-se e, por um momento, foi como se esse céu plúmbeo estivesse cravejado de gordas estrelas douradas. A essa altura, a chuva caía fraca, embora correntes de vento ainda brandissem os galhos das árvores, mas agora sem qualquer frêmito. Eu não sabia se considerava tudo aquilo ou bonito ou triste ou apenas conveniente para a data e para o meu espírito – sabia apenas que era inútil, que o entardecer ficaria em mim como um vislumbre de beleza ou ternura e que às vezes eu sentiria a necessidade de resgatá-lo, mas apenas isso; nenhuma esperança e nenhum renascimento. De qualquer modo, a ternura perdurava quando saímos da proteção da marquise e caminhamos até o jardim coberto por pétalas amarelas e iluminado por luzes que ardiam (um fulgor avermelhado, perto de se extinguir) em globos que lembravam lanternas japoneses. Tal o cenário: o céu cinza, nas ruas um brilho dourado, dentro da praça chamas escarlates, o chão coberto por pétalas de flores e bosta de pássaros que tinham assumido a textura de um musgo escorregadio, os bancos de madeira em ruínas, e debaixo de um deles um cachorro também perto da extinção, que pouco ligou para a comida deixada por mim e pelo pai. No caminho de volta, ao passarmos diante do bar onde os homens se reúnem para jogar cartas e dominó, fomos saudados por um sujeito que entrou em seu carro e saiu em disparada. A ternura começava a se abrandar, uma nova sombra de asco avizinhava-se, e não apenas isso – exaustão também, cansaço de existir na cidade, a falta de ânimo para sair nos sábados seguintes e procurar garotas e ficar embriagado como aquele homem que, saudando a todos, saía alucinado.
Hoje quase já não saio para passear, mas às vezes, durante uma dessas minhas raras deambulações, até alcanço ruas que me são desconhecidas. Foi assim na última sexta, quando, aproveitando que nos dias de calor a noite demora a pousar, decidir ir ao sul de uma avenida larga e habitada por prédios de no máximo dois andares – um arremedo do que imagino ser a Hollywood Boulevard. Dobrando esquinas angulosas, fui me afastando cada vez mais da avenida. Quando dei por mim, perambulava por uma rua invadida pelo mato, sendo obrigado a desviar de galos. Ao atingir o ponto mais ao sul possível, comecei a subir. Tomei uma rua de início paralela à avenida, mas que com esta convergiria ao oeste, na sua numeração mais alta. A intersecção, percebi com uma antecedência de duzentos metros, seria ao pé de um auspicioso edifício erguido há poucas semanas. À medida que me aproximava, mais ermos ficavam os quarteirões (durante todo o trajeto não houve nem sequer uma silhueta de mulher que eu pudesse perseguir). Por fim cheguei a uma praça que me pareceu vazia, onde, no lugar que deveria pertencer ao coreto ou ao chafariz ou à imagem do soldado desconhecido, havia a estátua de uma carruagem conduzida por um anjo – o que me pareceu ser uma evocação dos Portões de Brandemburgo. Olhando com mais atenção, vi um bando de velhos que, na companhia do seus cães ou netos, descansavam nos bancos (brancos como mármore), outros exercitavam-se sob a diáfana (até meridiana) luz do entardecer. Não é possível ir adiante, pensei comigo mesmo, e iniciei o caminho de volta. Enquanto caminhava ao largo da praça e do condomínio, até pensei em Kaváfis, nos bárbaros que nunca haverão de chegar (pois aqui já estão) e na espera que não existe e que talvez nunca tenha existido. O que resta é morrer sob o sol, como se nunca tivesse havido noite ou brumas que se ergueram na distância e roeram os ossos dos encoberto e outros infantes ou deuses. Estes, disse a mim mesmo num dos meus delírios de fuga, jazem em outras fronteiras; além desses falsos portões e além dessa luz límpida, duradoura, inócua.