<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205</id><updated>2011-04-21T21:37:57.318-07:00</updated><category term='Bandeira'/><category term='dezembro'/><category term='gatos'/><category term='primeira semana de outubro'/><category term='chuvas'/><category term='jasmineiros'/><category term='Santa Ana'/><category term='diário'/><category term='Martina Hingis'/><category term='estio'/><category term='mississipi'/><category term='garotas perdidas'/><category term='senhor hambúrguer'/><category term='morte da avó'/><category term='gordura podre'/><category term='morte de animais'/><category term='brisas'/><category term='bizâncio'/><category term='Brandemburgo'/><category term='conto'/><category term='agosto'/><category term='infância'/><category term='cinema da rua são sebastião'/><category term='corpo'/><category term='neve'/><category term='Eliot'/><category term='leonard cohen'/><category term='rosebud'/><category term='Kaváfis'/><category term='trio los panchos'/><category term='Dean Martin'/><title type='text'>Setembro em Montevidéu</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>31</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-5378737265106335762</id><published>2008-11-06T10:22:00.001-08:00</published><updated>2008-11-06T10:22:30.541-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>sobre a juventude</title><content type='html'>"Vejam", disse Pedro, que tinha os olhos fixos na distância, "eis o homem cujo rosto foi destruído por águias e falcões ".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma dessas tardes no início do verão, quando a noite demora mais a chegar e quando o sol, antes de se esvair, abre sobre a cidade uma sombra límpida e calma. Para onde quer que olhássemos havia silêncio. E o silêncio, no momento em que interrompemos os nossos afazeres e miramos o homem apontado por Pedro, ganhou uma existência tangível, quase solene. Lá estava, todos nós o contemplávamos: o homem que fora desfigurado por aves majestosas. Ou melhor: nós o víamos, mas não víamos a sua face destruída, uma vez que durante todo o tempo ele esteve distante, e as cores da luz em fuga – agora percebíamos  – não caíam sobre a cidade, mas sobre o seu corpo, que parecia apartado de nós por uma inultrapassável linha de sombra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, não deixamos de observá-lo por um segundo sequer, pois ele era o peregrino pelo qual muitas vozes suplicavam, o eleito a quem tantos teriam confiado os próprios corações. O rosto destruído lhe conferia uma grande autoridade moral, uma natureza quase divina, ou talvez – por motivos misteriosos – a sua presença era o bastante para que nos sentíssemos próximos do que havia de mais grandioso em nós. De repente tínhamos a consciência de algo terrível porque maravilhoso e urgente e isso não se traduzia em palavras, tampouco em atos. Pois foi apenas isso o que aconteceu durante aquela tarde. Observamos a passagem do homem de rosto carcomido por talvez vinte minutos. Ele não se aproximou, nada falou. Nós guardamos atitude semelhante. O silêncio, cuja existência parecia tão fecunda e alegre, precipitou-se em um canto de cigarras. No céu, as cores em fuga assumiram um difuso brilho dourado, que se tingiu de vermelho, que se transmudou para o violeta, que passou para um pálido azul, que escureceu, que se transformou em noite. No dia seguinte, soubemos da morte daquele que tivera o rosto devorado pelas aves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois daquela semana de eventos singulares, seguimos com as nossas existências, as quais se revelaram econômicas tanto nos triunfos quanto nas mesquinharias. Apenas muitos anos mais tarde – quando éramos velhos cujas vozes eram um frêmito que se esgotava – viemos a conhecer outras histórias a respeito do homem que assombrara a nossa juventude. "As aves não o atacaram e ele nunca foi mais do que um miserável, um porco que desperdiçou a vida em prostíbulos, que se apaixonou por mulheres corruptas, que teve o corpo roído por uma infinidade de doenças venéreas" – eis o que passaram a dizer, e o debate cresceu até que se decidiu exumá-lo para estudos, mas também esse ato não possibilitou qualquer conclusão: a terra, que o acolhera como um sudário, também apagara qualquer vestígio de sua existência neste planeta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-5378737265106335762?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/5378737265106335762/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=5378737265106335762' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/5378737265106335762'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/5378737265106335762'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2008/11/sobre-juventude.html' title='sobre a juventude'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-3070659708311285675</id><published>2008-10-27T19:08:00.000-07:00</published><updated>2008-10-27T19:09:14.132-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Ainda não é agosto mas o calor começa a voltar, pensou Oklahoma enquanto, durante o entardecer do domingo, caminhava da Praça dos Gatos até a sua casa. Acabara de anoitecer e nuvens brancas de mormaço se reuniam em um céu que, ainda que estivesse límpido, estaria sem estrelas. Um bafo quente descia por entre as árvores e trazia um cheiro de poeira e terra queimada, mas o vento não era contínuo – em alguns momentos os galhos das árvores ficavam completamente imóveis, embora o cheiro de terra queimada permanecesse. Das auréolas de luz no alto dos postes caía um brilho amarelado que, incidindo sobre as fachadas das casas velhas, conferiam ao bairro um aspecto de vilarejo localizado nos confins do México, quase na fronteira com os Estados Unidos. Os ruídos que eram ouvidos: acordes de canções que, conforme a intensidade das brisas, aproximavam-se ou afastavam-se; a narração de um jogo de futebol pela boca de um locutor de rádio; as vozes dos homens que, dentro de um bar cuja porta estava descida até a metade, jogavam baralho sinuca e bocha; os Salmos entoados durante a missa das seis horas – tudo isso apenas aumentava a sensação de cidade onde reina apenas o murmúrio. Em um lugar assim, os mortos, tanto os do passado quanto os do pôrvir, nunca deixam de ser ouvidos, os seus afazeres são ruidosos e vazios de significado, e as melodias por eles sussurradas são de uma melancolia avassaladora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao lado de Oklahoma, caminhava o seu pai. Nos primeiros quarteirões, conversaram sobre a tristeza de outros domingos. A equipe de futebol pela qual torciam, durante o campeonato do ano passado, realizara uma campanha sofrível, e eles relembraram os dolorosos crepúsculos durante os quais, após a derrota, precisavam aprontar a avó agonizante pois também era chegada a hora de devolvê-la ao asilo. Durante as preparações exigidas para o ato, o céu – um amontoado de nuvens pardacentas e pálidas que se incendiavam nos limites do poente – tratava de se apagar e, quando ligavam o carro, a noite era uma realidade da qual não podiam escapar, pelo menos no interior do bairro onde viviam pois, logo que o veículo alcançava a Avenida Norte, era possível observar o entardecer com maior nitidez.  Para tanto, precisavam apenas virar o pescoço na direção do oeste – isso bastava para a contemplação de olarias e postos de combustível em ruínas,  choupanas de madeira, cavalos comendo capim seco às margens do raso e poluído ribeirão que seguia parelelo à avenida por quilômetros, os milhares de mosquitos e gafanhotos que zuniam acima das águas, as crianças que corriam e jogavam bola muito próximas do acostamento. Sobre esse cenário o céu era um ardor incandescente que logo se desmanchava em vapores avermelhados e depois, quando a noite finalmente tombava sobre toda a cidade, os bairros mais pobres passavam a existir debaixo de uma luz alaranjada e escassa e o cheiro de terra estiolada ficavaa mais forte do que qualquer outro odor. No banco de trás, a avó ora balbuciava incoerências, ora se engasgava com a própria língua, e o pai, ao evocar esse detalhe enquanto caminhava da Praça dos Gatos até a sua casa, falava da derrota e da doença e da morte com os olhos turvados pela nostalgia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após o jantar os ventos ganharam força e, ao soprarem sobre as folhas das bananeiras no fundo do quintal, ergueram um frêmito que se manteve durante o resto da noite. Quando as brisas sopravam com intensidade ainda maior, esse cicio perdia a sua monótona constância e o que se escutava era um ruído parecido com o de enormes árvores rebentando e caindo dentro da trevas; portas e janelas batiam aqui e ali, e o eco do estrondo provocado por esses impactos permanecia no ar por um instante a mais do que seria o natural, e essa irreal permanência dos sons assumia a existência quase-corpórea de um hálito que, deslizando sobre a pele de Oklahoma, abria buracos de perplexidade e espanto dentro de seu espírito. No minuto seguinte um bêbado gritava. Também a sua voz reverberava na atmosfera por um tempo insuportável, e em Oklahoma o assombro aumentava na medida em que tudo aquilo se revelava mais e mais familiar. Logo será agosto e estará calor novamente, pensou em mais de uma ocasião, e o inevitável retorno do calor provocava em Oklahoma um sentimento de angústia que beirava o esgotamento nervoso, pois o futuro chegava e trazia apenas a repetição do passado. Para a natureza pouco importava que, em um romance escrito há dois ou três anos, Oklahoma já vivera noites exatamente como aquela. O calor chegou como nos anos anteriores, ele havia escrito, e agora sabia que escrevera tal frase (e talvez todo a saga de Carlos Shangai) com a secreta esperança de que, nos anos vindouros, o calor chegasse de maneira diferente – mas não, durante todo o futuro o calor voltaria a chegar exatamente como nos anteriores, e nem sequer restava o consolo de compreender e escrever isso pela primeira vez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, Oklahoma acordou tarde e não foi capaz de se concentrar nos estudos. Ainda deitado na cama, respirou o cheiro de sol que havia se esgueirado para dentro do quarto e por um momento teve a sensação de que – durante o sono – regressara para uma época em que fora outro. O nome Carlos Shangai, como se houvesse sido chamado pelos ventos impregnados de terra e luz, ressoou como uma evocação fantasmagórica, mas no minuto seguinte tudo retornou a um silêncio que, a intervalos irregulares de tempo, era maculado pelos ruídos do vento que erguia torvelinhos de poeira e folhas mortas. Depois, ao ouvir um grito e em seguida o barulho de britadeiras, ficou com a impressão de que habitava um mundo onde co-existiam a irreal (e torturante) permanência do passado e os berros de máquinas trepidantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lavou-se e foi até o quintal. O pai, agora aposentado, estava sentado na varanda da casa que no passado pertencera a avó. Lia o jornal e, ao perceber a presença de Oklahoma, ergueu a cabeça e o saudou. No fundo do quintal, a mãe regava as samambaias e os vasos de flores vermelhas e amarelas. O céu era de um azul puro, sem nuvens, e o sol – ardendo forte sobre os telhados – lançava sobre o bairro uma claridade que, apesar de ser poeirenta, também era cristalina. O som de britadeiras vinha de um terreno no outro lado da rua, onde era erguida uma construção de dois andares. Os operários que lá trabalhavam comunicavam-se aos gritos, mas às vezes todos se calavam e até as máquinas deixavam de ser escutadas, de modo que tudo o que chegava aos ouvidos de Oklahoma eram os indistintos e afastados rumores da manhã de um dia útil. A mãe, ao vê-lo, sem deixar de regar as plantas, reclamou do excesso de ventanias e de poeira lançada sobre os móveis. Em outras palavras: para o dia (e para as pessoas que o habitavam) era como se não houvesse passado, ou melhor, era como se o passado não passasse de uma abstração – como se o sentido dos dias idos não fosse mais do que um pensamento tido por Oklahoma, e agora, com a chegada do calor, ele não podia evitar a repetição desse pensamento que, apesar de exaurido, insistia em permanecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela tarde recebeu um telefonema de Pizarro, que conhecia desde os tempos do liceu e com quem mantinha uma amizade incomum, sendo que o adjetivo incomum serve para deixar claro que se tratava de uma amizade que prescindia de hiearquias. Oklahoma e Pizarro, em suas aventuras pela cidade, eram como dois Sanchos Panças que, na falta de companheiros ou acontecimentos que colocassem ambos no rumo de um sincero quixotismo, contentavam-se em perambular por perambular. No entanto, apesar do companheirismo que existia entre eles, aquele telefonema não deixava de ser uma surpresa: no ano anterior Pizarro havia se casado e agora vivia em uma próspera cidade nos arredores de uma hidrelétrica. Por esse motivo, as suas idas à cidade onde crescera eram cada vez mais esparsas, e aconteciam apenas durantes os finais de semana e feriados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontraram-se nas escadarias do teatro. Pizarro sugeriu de caminharem até o salão de bilhar da Rua Santiago. Oklahoma alertou o amigo que o salão de bilhar estava diferente da época em que o freqüentavam. Disse que, na última vez que passara lá em frente, havia observado apenas uma mesa de bilhar e que, ao que tudo indicava, a intenção do novo proprietário era transformar o estabelecimento em uma lanchonete ou pastelaria. Pizarro insistiu. Afirmou que, ainda que não pudessem jogar, gostaria de ver o lugar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Partiram e, após terem andado apenas dois ou três quarteirões, ambos tinham as frontes úmidas de suor. O calor aqui não muda, eu saberia que estou na cidade ainda que estivesse com os olhos fechados, comentou Pizarro com uma voz cuja rouquidão forçada era o maior indício da secura do clima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, nunca muda, foi a resposta de Oklahoma, que também parecia ter dificuldades para respirar. O sol da tarde, abrasado pelo mormaço e pela poluição, brilhava na altura dos seus olhos e o horizonte não era mais do que perfis de prédios quase que totalmente imersos em uma claridade crua e ofuscante. As ventanias, que durante a manhã haivam sido tão intensas, agora eram incapazes de erguer redemoinhos de poeira e folhas secas, e talvez por isso desaparecera o cheiro de terra queimada pelo calor. Oklahoma e Pizarro, ao respirarem, tinham os pulmões arranhados pela aspereza de uma ar que cheirava a gasolina e diesel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso lembra os tempos do liceu, disse Pizarro, e agora a sua rouquidão parecia estar modulada por um sentimento mais próximo da perda do que da suavidade da nostalgia. Lembra de Marina? Ela parecia pura. Tinha a pele branca, suave, estava sempre rindo, sempre com os olhos alegres. Queria poder acabar com a virgindade de uma garota assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez um sujeito me disse que meninas assim ainda cheiram a leite da mãe – respondeu Oklahoma – mas achei essa imagem incestuosa demais. O cheiro de uma garota como Marina é mais frágil do que a própria garota, que já é frágil. É como se ela tivesse começado a ter uma essência feminina há poucos dias, há poucos minutos. E não é um cheiro doce; é um cheiro mais ácido do que doce, um cheiro de alguma coisa que ainda não começou a estragar. Acho que não seria capaz de acabar com a virgindade de uma menina assim. Não por escrúpulos, não por pudor, mas por me sentir tão próximo de uma beleza ao mesmo tempo tão absoluta e precária que isso me deixaria paralisado. Eu olharia Marina sem roupa, ela deitada na cama, os seios pequenos e rosados como feridas abertas no peito, as pernas abertas, a buceta inchada pela umidade, saltando à flor da carne e abrindo-se sozinha. É terrível. Eu ficaria aniquilado, dividido entre ser insuportavelmente terno (quase paternal) e idéias de violência, pois quando a beleza surge assim a gente quer destruí-la, a gente quer humilhá-la até que desapareça o encanto que surgiu em nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dói pensar nisso. Dói imaginar como seria ter a idade que tenho hoje e comer a Marina de dezessete ou dezoito anos, falou Pizarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje ela tem a nossa idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso dói mais ainda, fico cheio de raiva. Se agora eu visse Marina, acho que não sentiria nada além de raiva. Ela pode continuar bonita, pode querer se deitar comigo, e eu iria. Ela ainda deve provocar muita angústia em que a vê, mas não consigo deixar de ter raiva, não consigo deixar de sentir dor ao pensar nisso tudo. Eu quero a Marina de dezessete anos, disse Pizarro, e forçou um riso, como se ele e Oklahoma sofressem de um apetite cancerígeno que mataria ambos, de modo que que tudo o que restava era rir do corpo em declínio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse momento – de um terreno a poucos metros de distância, ocupado por tratores e caminhões – veio um estrondo e, no momento seguinte, uma névoa branca e áspera ganhou a rua com velocidade espantosa. Os operários que esperavam diante do terreno começaram a tossir e, tossindo, sumiram dentro daquela bruma que agora avançava sobre os dois amigos. Oklahoma sentiu os pulmões serem invadidos por algo que lembrava areia fervente. Pizarro teve uma sensação parecida e, ao começar a tossir, teve náuseas. Devido à sujeira presente no ar, ficava difícil olhar para frente pois era grande a chance de ter os olhos feridos pela poeira que integrava aquela parede de fumaça. Portanto foi quase às cegas que Oklahoma e Pizarro aceleraram o passo e só voltaram a abrir os olhos quando sentiram o sol da tarde queimando sobre as suas peles. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que derrubaram alguma casa, falou Pizarro, ainda tossindo. Com uma frase monossilábica, Oklahoma concordou e, ao olhar na direção do amigo, espantou-se. O seu rosto havia sido quase que inteiramente coberto pela poeira branca, o que, em contraste com os olhos fundos e de um verde muito escuro, deu a Oklahoma a terrível e grotesca impressão de que Pizarro era, na realidade, um cadáver. Lembrou-se do filme "Morte em Veneza". Mais precisamente, lembrou-se do rosto de Gustav Ashenbach quando, após ter se entregado aos cuidados do barbeiro do hotel,  caminha pelas ruas pestilentas com os bigodes pintados de negro, a boca sanguínea, o rosto maquiado por pó de arroz, com um sorriso enlevado pelas palavras do funcionário do hotel:"Agora você voltou a ser jovem. Agora está pronto para o amor" &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sua cara está toda branca, enfim disse Oklahoma. Pizarro passou as mãos no próprio rosto e em sua fronte (ainda úmida de suor) ficou a marca deixada por seus dedos. Pizarro pareceu não se importar com isso e, com uma voz muito calma, informou que também Oklahoma tinha o rosto sujo de branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucos minutos depois alcançaram a Rua Santiago. Pizarro caminhava alguns metros a frente de Oklahoma que, à medida que se aproximavam do salão de bilhar, andava mais devagar. Por fim – diante do estabelecimento, no outro lado da rua – ambos estacaram. Das quatro portas do salão de bilhar, três estavam fechadas e eram de um azul refulgente, que devolvia com ferocidade a luz do sol que, também raivosa, incidia sobre elas. A única porta aberta mostrava as ruínas que eram o interior do edifício: todas as mesas de bilhar haviam sido tiradas, o balcão fora derrubado e agora era reconstruído nos fundos do salão, no lugar antes ocupado pelas mesas cujas caçapas eram de barbante, os pisos também haviam sido retirados e o chão era de terra batida, enquanto que do teto da contrução pendia um confuso emaranhado de fios. Em meio a esses escombros, uma dupla de negros trabalhava aos sons de canções saídas de um rádio mal sintonizado, de modo que a estática prevalecia sobre a melodia. Os negros quase não falavam entre si, e, trabalhando com obstinação, às vezes faziam um movimento mais brusco e erguiam uma pequena nuvem de poeira que era desmanchada pela luz assim que ganhava a rua. Os cheiros mais fortes eram o de cal e cimento ainda úmido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos embora, disse Oklahoma, mas Pizarro não respondeu ao seu chamado. Olhava fixamente para o interior do antigo salão de bilhar, dedicando maior atenção ora aos operários, ora aos escombros. Oklahoma, ao perceber que o amigo não o tinha escutado, lançou novo olhar na direção da construção. Teve a impressão de estar diante de uma lápide, quis ficar triste, mas o seu espírito pareceu se recusar a isso – era como se Oklahoma, ainda que de maneira inconsciente, soubesse que estava diante de um desses espetáculos que, apesar de desoladores, são tão triviais que o bom senso afirma que não podem causar a menor alteração no humor de quem os contempla. Em outras palavras: era uma perda que não podia, com rigor, ser classificada como perda, pois acontece dezenas de vezes por dia – algo como um marcante filme que sai de cartaz para nunca mais ser exibido nos cinemas, ou como um vendedor ambulante que deixa de passar pelas ruas pelas quais sempre transitou, ou como a linda menina que, após uma ou duas semanas de aula e após ter trocado encorajadores olhares e sorrisos com um rapazola qualquer, consegue transferência para uma outra escola. E Oklahoma, ao pensar em todos esses exemplos, perguntou a si próprio se resultava algum sentido da soma final de todas essas perdas-que-não-são-perdas. No instante seguinte foi trespassado pela sombra de algo terrível e inominável, e, enquanto ainda pressentia essa sombra se agitando dentro de seu espírito, voltou a pensar no fluxo de desperdício que o acompanhava há anos, talvez décadas. Disse a si mesmo: a consciênca nunca deixa de mostrar o que perdemos, o que foi deixado para trás. Se um dia, por exemplo, eu estiver habituado ao vazio deixado por Carlos Shangai ou pela angústia de nunca ter beijado Marina, um outro vazio vai se abrir, e então me lembrarei de algo ridículo e insensato, algo como uma lamentação por nunca mais ter andado por certa rua ou contemplado determinada rapariga, e isso vai ser terrível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, vamos embora, repetiu Pizarro, como se ele tivesse entendido o significado das palavras de Oklahoma com espantoso e incompreensível atraso. Ambos deram as costas ao edifício em ruínas e voltaram a caminhar. Logo em seguida ouviram novo estrondo e, ao olharem para trás, observarem que mais uma nuvem de poeira branca saía de dentro da construção que um dia fora o salão de bilhar. O vento e a luz, ao incidirem obliquamente sobre essa fumaça branca, formaram um torvelinho que, ao cabo de menos de um segundo, desmanchou-se. A tarde voltou a ser cristalina, mas agora – talvez porque o crepúsculo estivesse muito próximo – transmitia uma idéia de aspereza, agonia e cansaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após vagarem sem rumo por vários minutos, encontraram, no caminho entre a Praça do Teatro e o Cinema Eldorado, um novo salão de bilhar. Tratava-se de um edifício estreito, bastante fundo, de paredes vermelhas, e cujo teto era mais baixo do que o normal. Havia quatro fileiras de mesas, e, ao fundo, um alto balcão de madeira. O sol da tarde ia apenas até a segunda fileira de mesas, e lá dentro o entardecer avançava com espantosa velocidade, de modo que, após transcorridos no máximo trinta minutos da chegada de Oklahoma e Pizarro, a luz já havia abandonado aquele recém-descoberto salão de bilhar, e assim o lugar repousava dentro de uma penumbra espessa e carmesim. Quando chegaram, todas as mesas estavam desocupadas e uma chinesinha de catorze ou quinze anos esperava atrás do balcão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oklahoma e Pizarro compraram cinco fichas, pediram cerveja, e foram até uma das mesas na fileira mais próxima da calçada. No outro lado da rua, havia apenas um imenso muro caiado e, à medida que a luz do sol declinava e caía a penumbra do entardecer, mais iluminado ficava o muro. Oklahoma, ao perceber isso, lembrou-se da morte da avó e durante várias vezes – como quem acorda e não sabe onde se encontra – teve a impressão de que jogava em algum salão de bilhar que ficava diante dos muros do cemitério. A chinesinha, talvez preocupada com o silêncio que imperava enquanto Oklahoma e Pizarro jogavam, foi até o aparelho de som e colocou uma fita cassete. A primeira música a ser ouvida, em seus acordes iniciais, lembrava inúmeras canções que falam de amor e nostalgia, mas, quando a voz do vocalista foi escutada, Oklahoma percebeu que ele cantava em mandarim. Passada essa estranheza inicial, Oklahoma e Pizarro concordaram que aquelas eram músicas muito bonitas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As próximas quatro ou cinco canções também foram cantadas em mandarim, e todas seguiam um formato bastante ocidental. As mais lentas lembravam Sinatra em um dialeto estranho, enquanto que as mais aceleradas se aproximavam bastante de músicas como "You Got It" e "California Blues", ambas de Roy Orbison; e essa inusitada sequência de canções permitiu que Oklahoma experimentasse de um lirismo que nada mais era do que uma sensação de juventude reencontrada. O alegre assombro por desbravar as ruas da cidade velha, a novidade de não ter hora de voltar para casa, a exuberância de raparigas como Marina e outras meninas do liceu, estar em um salão de bilhar totalmente desconhecido, ouvir músicas até então nunca ouvidas, a crescente embriaguez sendo recebida como um estado de profundo encantamento – era como se toda essa realidade pudesse ser revisitada com igual surpresa, fascínio, e até terror ante a descoberta de uma beleza nunca antes contemplada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que, para a surpresa de Pizarro e Oklahoma, as músicas cantadas em mandarim cessaram e o que veio foi uma série de antigas canções de amor, a maioria dos anos 70. Pizarro pareceu não se importar com essa mudança, ao passo que Oklahoma foi invadido por um pensamento bastante singular: imaginou um baile de formatura em alguma pequena cidade dos Estados Unidos (muito provavelmente localizada em algum estado como Missouri, Arkansas ou Georgia) e isso o levou a imaginar que, depois do baile, os rapazes e as garotas, metidos em camionetes, estacionariam no alto de um mirante, de lá contemplariam uma planície cravejada de luzes de néon e, mais ao alto e além, as estrelas de brilho límpido e esverdeado, e tudo isso – a implacável precariedade e ansiedade da juventude e de corpos que atingem um apogeu tão dolorosamente impossível de perdurar por mais do que poucos anos – o entristeceu. No instante serguinte escutou gritos e risadas ao seu redor. Virou a cabeça e observou que, em uma mesa próxima da ocupada por ele e Pizarro, um grupo de meninas jogava bilhar. Olhou para a mais bonita delas: ombros e braços magros, olhos de um pálido castanho, boca também pálida, uma blusa preta muito justa e que contornava os seios ainda em formação, uma calça jeans puída e suja, gestos expansivos (e, para além dos gestos e das risadas e frases de entusiasmo, percebia que a vida espiritual que habitava aquele corpo juvenil era frenética e ruidosa, e por um momento Oklahoma se lembrou do ar que cheira a ansiedade e euforia durante as horas que precedem o término de algum ano, e nesse momento a sua tristeza foi desbotando, cada vez mais contagiada por essa imaginada euforia) e cabelos presos em tranças, o que dava a entender que aquela menina perdia as suas tardes na feira hippie, vendendo objetos feitas por mãos sem qualquer brilhantismo – e isso, a tão evidente falta de talento em uma garota cuja única redenção era ser jovem, trouxe de volta os pensamentos tristes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu entendo, bom homem. É dilacerante, disse Pizarro, com os olhos fixos no pescoço e nos seios da garota, ele com um sorriso torturado no rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oklahoma nada disse. Por poucos segundos, também ele com um estúpido e doloroso sorriso na cara, olhou para Pizarro. Depois voltou a observar a rapariga e as pessoas que a acompanhavam, e somente então percebeu que aquele grupo que ria e gritava não era formado exclusivamente por garotas. Havia um homem. Um sujeito com idade entre 35 anos e 40 anos. Cabelos longos e grisalhos, roupas imundas, pequenos olhos de roedor, rosto deformado por um esgar que não chegava a ser sorriso – enfim, um homem que, em condições normais, não receberia de Oklahoma mais do que um desprezo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ainda acredita que está à altura daquelas meninas, disse Oklahoma, a voz modulada pela raiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um miserável, um náufrago que ainda não percebeu que Flebas e todos os outros morreram afogados, respondeu Pizarro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oklahoma, quanto mais olhava para o sujeito, mais o julgava repugnante. Por fim concordou com o amigo. Sim, é um náufrago, e o mais cômico é que deve se julgar um maldito, acredita que possui algum charme mas não passa de um fantasma, de um triste holandês voador, afirmou com o que lhe restava de desprezo, o rosto deformado por um esgar que permaneceu por vários segundos após a conclusão da sentença, como se Oklahoma tivesse sofrido um derrame cuja única consequência fora a rigidez dos músculos faciais. Demoraram vários segundos – talvez minutos – para que a deformidade desaparecesse e o rosto voltasse ao normal; tempo bastante para a noite cair sobre a cidade. A parede do outro lado da rua, agora exibindo um brilho fosforescente, ainda evocava os muros do cemitério. Oklahoma caminhou até a calçada e olhou para o alto. Era a primeira vez que estava no centro da cidade desde que fora inaugurada a nova iluminação. Agora poucos eram os quarteirões banhados por uma difusa e fugidia luz dourada, pois no cimo dos postes ardia um sol branco e ofuscante que dissipava todos os focos de sombras, o que dava às ruas um aspecto estrangeiro, e os ventos, que naquele mesmo lugar, há dois ou três anos, seriam abafados e venenosos, agora eram uma brisa gelada e esvaziada de cheiros e significados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cansado, Oklahoma quis regressar para casa, mas, temendo que o desconforto se mudasse em desespero tão logo ficasse sozinho, sugeriu que Pizarro pedisse mais fichas e bebida. Em seguida, caminhou até o banheiro. As luzes dentro do salão de bilhar estavam todas acesas, gerando uma claridade branca e asséptica como a que vinha do alto dos postes, de modo que as vermelhas paredes do salão de bilhar – que há menos de uma hora pareciam irradiar uma pesada névoa carmesim – lembravam apenas uma das inúmeras lanchonetes da cidade. Dos alto-falantes posicionados nas paredes não vinham mais os sons de bonitas canções de amor cantadas em mandarim ou qualquer outro dialeto, e o que se escutava, em meio a estática, era a delirante voz de um locutor de rádio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrou no banheiro e acendeu as luzes. Um clarão branco relampejou dentro das trevas, tudo voltou a ficar escuro, veio novo clarão (agora menos intenso) e por fim se instalou uma claridade difusa. Oklahoma, ao olhar para as duas lâmpadas fosforescentes, percebeu que uma estava quase totalmente apagada e a outra funcionava com metade da sua potência. Na sequência observou a realidade ao seu redor. O banheiro se resumia a um cubículo de paredes caiadas. Em um dos extremos do cômodo, havia uma privada branca sem tampa e no chão, ao lado da privada, um magro rolo de papel higiênico. No entanto, o que mais chamou a atenção de Oklahoma, foi a ausência de obscenidades e frases idiotas escritas nas paredes, o que apenas ressaltou a sensação de mundo asséptico. Junto a uma das paredes laterais, havia uma pequena pia branca e, acima da pia, um fosco e quadrado espelho. Molhou os pulsos e uma sensação de alívio passou por seu espírito de maneira tão abrupta que foi sacudido por uma vertigem que, apesar de não ter sido forte o bastante para derrubá-lo, trouxe de volta aquele estado de assombro e perplexidade que é comum a quem acorda e não sabe onde se encontra. Ao desligar a torneira o silêncio relampejou dentro do cômodo da mesma forma que as luzes no momento em que ele acendera o interruptor. Esse silêncio foi o bastante para assustar Oklahoma, que foi acometido pela sensação de estar sendo espreitado por algo como um demônio. Olhou-se no espelho. O seu rosto, ainda sujo de poeira, permanecia branco, espectral. Tentou se lavar, mas a palidez parecia apegada à sua pele como areia fervente. Mirou então os próprios olhos, que estavam muito abertos, e pareciam estúpidos e apavorados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retornou ao salão de bilhar. Agora todas as mesas estavam ocupadas por grupos contendo até mais do que cinco pessoas. Todas gritavam, riam, falavam, e a voz do locutor do rádio não era mais do que um chiado irritante, modulado pela estática, e que reverberava como se fosse o evanescente vestígio de um sonho ruim. Foi até o amigo, que, com um aceno de cabeça, indicou que mais uma linda garota havia se juntado ao grupo da rapariga de cabelos trançados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, bom homem, é dilacerante, ainda disse Pizarro antes de estourar as bolas e iniciar uma nova partida. O barulho provocado por esse estrondo inicial ecoou – seco e estridente – por todo o salão de bilhar. Nenhuma das bolas teve como destino a caçapa e Pizarro, com um sorriso de descontentamento, virou o seu rosto branco na direção de Oklahoma e afirmou que aquela era uma noite marcada pela ausência de sorte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos, o frenesi que vinha das outras mesas foi perdendo a intensidade, e não demorou para que todos os rumores (as vozes das outras pessoas, a estática do rádio mal sintonizado, o estrondo nascido dos choques entre as bolas) assumissem a natureza de um frêmito amortecido. A sensação de terror, que atingira o apogeu no instante em que Oklahoma fora até o banheiro, também se aquietou. Pizarro, após ter ganho a partida, caminhou até a calçada e lá ficou imóvel por alguns segundos, respirando o ar noturno. Ao retornar para o salão de bilhar, disse que nenhuma outra cidade do mundo lhe causava tanto febre e euforia, e na sequência deixou o corpo cair sobre uma cadeira. Parecia insuportavelmente exausto e – com o rosto sujo de cal, os olhos de um verde profundo e pantanoso, semblante que oscilava entre o tédio, a cólera, a urgência e até o desespero – havia algo em sua atitude que o aproximava de um outro Pizarro, o conquistador espanhol, e era como se ele, após ter empregado todas as suas energias e sacrificado a vida de milhares de homens, finalmente alcançasse o Eldorado apenas para descobrir que era mais uma sítio devastado pela loucura e pela peste. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto como se estivesse desaparecendo, sentenciou Pizarro, a voz sobrenatural na medida em que não parecia sair de um corpo. Sinto como se integrasse uma civilização, uma cultura que vai desaparecer quase sem deixar vestígios. É isso o que sinto – que tudo o que vivi e tudo o que irei viver não passa de uma entre tantas dinastias que existem sem que ninguém perceba. O que posso deixar de herança? Raiva? Ódio? Espanto? Nem o que possuo de pior necessita de mim para se perpetuar. Uma geração sucede a outra e não há nada que as una. O único legado que posso deixar é também o único legado possível: ter nascido, ter sido um homem, ter morrido, ter evaporado.&lt;br /&gt;Sem deixar de ouvir o amigo, Oklahoma estudava o taco que tinha em mãos pois havia percebido que parte da madeira apresentava uma marca avermelhada. Considerou que talvez fosse uma mancha de sangue e a acariciou, pensando no ato de violência que a ela dera origem. Nada sentiu, mas se lembrou do romance que escrevera e o nome Carlos Shangai ressoou como um chamado sinistro. Foi então a vez de Oklahoma caminhar até a rua. Apesar do alvor que vinha do alto dos postes, era uma noite quente, típica de agosto, e pela primeira vez – desde que anoitecera – Oklahoma sentiu o cheiro de terra queimada e percebeu, vindos de longe, rumores indistintos. Pensou em Pizarro. Pensou que, para o amigo, a pior desgraça de todas fora abandonar a cidade. Mas ele sabia o que era permanecer. Sabia o que nunca era se divorciar da luz e dos lugares da juventude; sabia o quanto havia de impureza e de desespero naquela noite de nostalgia. E no entanto, como ele, Oklahoma, poderia existir em outro lugar? Por que, quando pensava em sair, considerava tal ato como o mais cruel exílio? Por que tinha medo de acabar como Pizarro (um homem que, para todos os efeitos mensuráveis, era bem sucedido)? Nesse momento, impulsionado por uma súbita piedade pelo amigo, disse: Vamos lá. Sursum Corda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pizarro, ainda largado sobre a cadeira, os olhos espectrais, a postura de quem encontrou apenas loucura, riu com desprezo. Sim, coração ao alto, corpo no inferno. É o que acontece, não? Tudo é terrível: sair, permanecer, retornar, perder o corpo da juventude, tentar conservá-lo a todo custo, ser um outro, nunca ser um outro. Tudo se repetiu infinitas vezes. Que novidade há naquela menina de cabelos trançados? Eu já vi centenas, milhares como ela, e todas desapareceram. Evaporaram. A beleza nunca permanece. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oklahoma riu e, tentando ser malicioso, replicou mas quem não gostaria de comer uma garota como ela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pizarro encheu o copo com o que restava na garrafa, bebeu tudo com um único gole. Cheguei à cidade ontem, durante a  madrugada. Sabe o que fiz? Peguei o carro e fui até a casa de Margot. Estacionei do outro lada e rua e fiquei olhando para as sombras. Depois fui às putas, mas não falei com nenhuma delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos dar um passeio, disse Oklahoma, já se dirigindo ao balcão para pagar. Lá, contemplou a miúda figura da chinesinha que, aparentemente alheia ao que acontecia ao seu redor, assistia a um programa de calouros no qual os participantes falavam em mandarim e dançavam freneticamente. Oklahoma, ao prestar atenção no espetáculo enquanto a garota calculava o valor da conta, considerou toda aquela agitação muito engraçada e, enternecido, começou a rir, primeiro timidamente e depois quase gargalhando – um impulso que não foi capaz de conter e que, ao reverberar em seu espírito cansado, entorpecido e atônito, soou como a manifestação de uma força sobrenatural que agia em seu corpo e que era forte o bastante para suprimir o seu bom senso. Pizarro, que havia calculado com antecedência qual seria a cota que deveria pagar, após ter pousado uma nota sobre o balcão, dera as costas ao amigo e agora já o esperava na calçada. Tinha a intenção de que o ar noturno curasse a sua embriaguez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite ainda cheirava a terra e a mormaço, embora agora um forte vento vergasse as árvores. Caminharam até o Cinê Eldorado, mas as portas já estavam fechadas. Ainda assim ficaram diante do cinema por vários minutos, tentando vislumbrar os cartazes dos filmes através das esfumadas vidraças. Dentro do cinema, ardia uma luz azul, e era como se uma criança dormisse em uma das poltronas do lobby, de modo que a mãe, para apaziguar o terror do filho, havia ligado um abajour que irradiava uma tênue e doce claridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os rostos dos atores e as letras dos títulos, pairando sem peso dentro da fraca claridade, não podiam ser vistos com nitidez, o que impedia os amigos de saberem quais eram os filmes em exibição. O nome Carlos Shangai ressoou mais uma vez, e talvez por isso Oklahoma – com os nervos agitados pelos ventos que rebentavam árvores ao longe e perturbado pela natureza peremptória do chamado que não cessava de interromper os seus pensamentos – mais uma vez pensou que o que vivia nunca deixaria de ser uma torrente de desperdício, e ele nada podia fazer para afastar de si esse destino. Não há nada que cause maior assombro a um fantasma do que a realidade, quis dizer para Pizarro, mas se calou. Olhou mais uma vez para o interior do cinema adormecido. A imagem de uma criança que dormia sobre um dos sofás do lobby retornou aos seus pensamentos, mas com uma alteração: agora era como se a criança estivesse morta, como se aquele cinema fosse um mausoléu, uma câmara mortuária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro que escrevi: enviei os originais para um concurso, Oklahoma disse, mas um estampido seco – seguido por um bater de asas  - ecoou ao longe. Oklahoma lembrou-se da casa que vira ser demolida durante a tarde. Pizarro comentou que o estrondo viera da Praça da Catedral, e os dois amigos puseram-se a caminhar na direção de onde vinham os estouros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto avançavam os ventos cessaram. O mormaço da noite tornava o céu tão escuro e profundo que nenhuma estrela parecia existir acima das aureólas de luz irradiada pelos postes. À medida que se aproximavam da praça, os estrondos aconteciam a intervalos de tempo cada vez mais curtos e, na atmosfera estagnada, era possível respirar o cheiro de pólvora. Chegaram. No interior da praça, mais da metade das lâmpadas estavam queimadas (as lâmpadas acesas emanavam uma difusa e fraca penumbra dourada), e a impressão que se tinha era de que a claridade branca nas ruas ao redor do jardim contornavam e definiam um vale de sombras tão maciças que a torre da catedral não era mais do que um indistinto vulto que se elevava contra as trevas. Oklahoma e Pizarro aproximaram-se dos dois homens que, imóveis no interior da praça, acendiam pequenos explosivos e os lançavam perto das árvores. Um deles era taxista. O outro era um padre, e, como se tivesse acabado de celebrar uma missa (hipótese bem provável, pois na catedral a última missa do dia acontecia às dez horas da noite), ainda trajava a batina negra. Magros, ambos tinha os rostos macilentos e repletos de sombras. Após arremessarem os explosivos, esperavam o estouro e então olhavam para o céu, pois o que se percebia – logo que o eco provocado pelo estouro da bomba desaparecia – era um quase inaudível farfalhar de asas. Oklahoma e Pizarro, assim que se acostumaram com a escuridão, puderam ver que, após cada estouro, bandos de pássaros saíam das copas das árvores. O padre, ao perceber a aproximação dos dois amigos, reconheceu Pizarro. O seu pai não é o seminarista?, perguntou e, antes que houvesse tempo para a resposta, voltou os olhos para o céu e, contemplando as aves que voavam às cegas no céu sem estrelas, afirmou: Queremos que os pássaros vão embora. Ele trazem a doença para a cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que não vamos às putas?, sugeriu Pizarro, no momento em que saíam da Praça da Catedral. As bombas continuavam a estourar e o cheiro de pólvora era cada vez mais irrespirável.&lt;br /&gt;Abriu uma nova casa de striptease na cidade, respondeu Oklahoma. Fica acima da Nove de Julho, mas não sei em que rua. Tem um nome de um lugar gelado e distante. Escandinávia, Estocolmo, Oslo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a metade inicial do caminho, ambos estiveram calados. A noite continuava sem ventos. O estrondo das bombas que explodiam na Praça da Catedral perdurou por inúmeros quarteirões, depois foi enfraquecendo e finalmente um manto de silêncio caiu sobre os telhados. A quietude, que a Oklahoma pareceu súbita e irreal, enervou-o ainda mais. Por um momento, como se fosse asmático, teve dificuldades para respirar, mas logo em seguida o ar (ansioso, áspero, fervente, cheirando a terra, cana queimada e poluição) invadiu os seus pulmões e ele considerou que toda a estagnação e pestilência da noite não seriam diferentes da que encontraria caso estivesse a bordo de um navio aprisionado pela calmaria. Olhou para Pizarro. Quis lhe dizer que a cidade era como uma embarcação imóvel no oceano, e que esse era o motivo de nada mudar: Com a proa voltada para o sul durante todas as auroras e crepúsculos, o sol sempre se eleva no mesmo ponto, realiza no céu um percurso idêntico ao realizado em todos os outros dias, e sempre incendeia a mesma paisagem durante o entardecer. Até a movimentação dos poucos ventos é previsível. Pela manhã,  a brisa vem do leste; pela tarde ora sopra do sul, ora sopra do norte, e quando esse sopros acontecem simultaneamente redemoinhos de terra vermelha surgem e desaparecem no próximo segundo. Anoitece. Nos meses frios Vênus fica sobre a casa da avó, assim era quando ela vivia, assim continou após ela ter morrido. Durante o calor, o Cinturão de Órion nunca deixa de cintilar sobre as bananeiras. Do interior dessas árvores frutíferas, saem morcegos e vagalumes. Gafanhotos voam por entre as samambais. A miséria está ao norte. A euforia e a devassidão estão sempre ao sul – lá é possível se embriagar, se entorpecer, contemplar miríades de garotas que surgem como uma esplendorosa relva que, ao fim de duas ou três estações, são ceifadas pelo mesmo destino ceifou a relva que as precedeu.  Ficar em um lugar assim durante muito tempo torna-se um maldição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse discurso trespassou a consciência de Oklahoma com a velocidade de um relâmpago. No entanto, quem falou foi Pizarro. Começou a contar a história de uma garota gorda que havia conhecido durante a universidade. De como ela, em uma noite, bebera vinho até cair e de como fora incapaz de se erguer, patinando e despencando inúmeras vezes sobre o próprio vômito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era como uma barata virada com as perninhas para cima, disse Pizarro, e essa indireta (e talvez não intencional) alusão a Gregor Samsa revelou-se excessivamente cômica para Oklahoma, que – como já havia acontecido no salão de bilhar – começou a gargalhar com uma violência quase sobrenatural. Quanto mais ria, mais percebia o som das próprias gargalhadas ecoando pelos quarteirões desertos. Pensou então que acordaria todas as pessoas que viviam nos prédios por entre os quais caminhavam, e essa possibilidade soou amedrontadora (como se a gargalhada fosse o inequívoco sinal de uma possessão demoníaca, ou então o símbolo de uma decadência irreversível e repugnante, e nada seria pior do que ser contemplado por estranhos enquanto risse).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, assim que cruzou a Avenida Nove de Julho, Oklahoma parou de gargalhar. Pizarro perguntou se ele tinha alguma idéia de onde ficava o lugar que procuravam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em alguma dessas ruas, respondeu Oklahoma. A potente luz branca que vinha do alto dos postes não dissipava as sombras formadas sob as frondosas árvores que, naquela região, existiam ao montes em quase todos os quarteirões; e era justamente no interior dessas sombras que se escondiam os vultos das prostitutas. Pelo menos foi isso que pareceu a Oklahoma e Pizarro após um olhar inicial. Mas logo eles perceberam que os corpos que esperavam – sussurrantes, ungidos por uma avidez terrível porque mentirosa – dentro das sombras eram de homens transformados em mulheres. Alguns deles, ao perceberem a confusão de Oklahoma e Pizarro, murmuravam frases provocadoras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percorreram os quarteirões acima da Nove de Julho por mais de trinta minutos, e em nenhum momento estiveram diante de uma construção que lembrasse uma boate de striptease. Na atmosfera sem ventos (o que tornava improvável a propagação de qualquer rumor) percebiam recortados acordes de uma música que nunca era identificável – algo como o tiaso fantasmagórico, o espectral rufar de tambores e ecoar de cornetas que, como Oklahoma havia lido em um poema de Kaváfis, assombrou Marco Antônio no momento em que este, de um balcão, contempla e diz adeus à Alexandria que ora perdes. Esse rumor de músicas, em vários momentos, esteve muito perto, mas – como em um sonho ruim – a cada momento parecia vir de uma direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estacaram diante de um dos corpos imersos nas sombras. Perguntaram sobre a localização de algum lugar que poderia se chamar Estocolmo, ou Escandinávia, ou Oslo. O corpo, sem emergir das sombras, imóvel e sussurrante como uma demoníaca estátua enncontrada nas ruínas de algum cemitério pagão, afirmou que não conhecia um lugar com esse nome. Oklahoma e Pizarro seguiram caminho. O indistinto rumor de músicas deixou de ser ouvido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela está grávida, afirmou Pizarro com uma voz muito cansada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela quem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice, e a voz de Pizarro soou como se o nome da esposa fosse o de alguma divindade  que, apesar de maldita, era objeto de uma eterna e incondicional reverência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quanto tempo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três meses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parabéns, disse Oklahoma, e esticou a mão direita na direção de Pizarro. Após o cumprimento, ambos seguiram em silêncio. O frêmito musical voltou a ser escutado, agora vindo de algum ponto ao norte. Oklahoma sentia-se constrangido por ter dito "parabéns": era como se o singular significado de todo o dia (mas que significado poderia haver em uma jornada que buscava a ridícula repetição dos hábitos da juventude?) houvesse esmorecido, como se o lugar-comum dos votos de parabéns tivesse dissipado o encanto, lançando-os ao vórtice de uma noite e de uma existência absolutamente vulgares. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou ao redor: os corpos dos travestis ainda ofegavam dentro da trevas, estranha música reverberava ao longe, a escassez de ventos não provocava o menor movimento nos galhos das árvores, do céu sem estrelas descia um bafo cálido, o inconfundível cheiro de terra queimada significava calor. Disse a si mesmo que não havia nada mais exaustivo do que a realidade – nada poderia ser mais absoluto e irredimível, e talvez por isso o seu coração não deixasse de se sobressaltar. O que vivia era pouco e, no entanto, o que vivia era tudo: a alucinada repetição dos dias, a luz em declínio, a luta do corpo para continuar sadio e perfeito, agora o espanto perante a perpetuação do que parecia ser tão precário e miserável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que Oklahoma, ao perceber toda essa agitação dentro de si, lembrou-se do que havia sentido no funeral da avó: se naquela ocasião havia percebido um vínculo com todos os mortos de todos os tempos, agora o elo que julgava reencontrar era com todos os vivos de todos os tempos, e ao pensar nisso quis saudar o amigo com mais alegria, mas se conteve ao perceber que na noite o sentimento mais presente continuava sendo a fatalidade, e agora, mais do que nunca, essa fatalidade parecia ser uma mistura de medo e incompreensão – como se eles tivessem visto Lázaro retornar do mundo dos mortos apenas para morrer no minuto seguinte, agora para todo o sempre. Mirou Pizarro, mas logo desviou os olhos. O amigo aparentava estar entregue a sentimentos tão íntimos que sentiu pudor apenas de olhá-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clarice grávida, afirmou Pizarro, e a frase murmurada trouxe em sua sombra um espantoso significado – como se, oculto atrás da estranha concretude do amontoado de fonemas que acabara de pronunciar, já existisse o corpo do filho que um dia nasceria, e não era uma existência simbólica, abstrata: era uma existência física, um corpo feito de carne e músculos e desejo, e essa corporalização do filho ainda não nascido parecia vibrar em cada frase, em cada pensamento tido por Pizarro, de modo que o amor se impunha com tanta fúria que acabava sendo tomado por espanto e até medo. Para onde quer que Pizarro olhasse, lá estava o filho: a lenta e ineroxável formação de um pedaço de carne que já exigia uma devoção absoluta, uma terrível ternura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se assuste, Oklahoma chegou a dizer, mas não completou o raciocínio. Pizarro parecia ter se esquecido da companhia do amigo, e agora, ao ouvir a voz deste, parecia não acreditar em sua presença, pois o fitava – o rosto grotescamente branco, os olhos atônitos – com toda a surpresa que pode existir em um homem. Oklahoma, constrangido, calou-se. Foi a vez de Pizarro falar: Não sei se quero tudo isso. Não sei se quero todo esse amor, essa infinita e grata reverência por uma vida que nasceu de mim. Estamos todos morrendo, mas, desde que soube da gravidez, sinto que estou morrendo cada vez mais depressa e que entre mim e a criança não pára de crescer um abismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oklahoma, ainda sem coragem de olhar diretamente para o amigo, notou que um fraco vento havia agitado os galhos das árvores, provocando um frêmito quase inaudível. O cheiro de terra ia se misturando ao de orvalho, embora a noite continuasse quente e abafada. No outro lado da rua, um carro havia estacionado debaixo de uma árvore e era possível ouvir, vindo das sombras, as vozes de dois homens que discutiam preços e possibilidades. O rumor de música ainda reverberava ao longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma criança, Oklahoma, uma criança, e, ao ouvir o seu nome proferido pela boca de Pizarro, Oklahoma percebeu um sobressalto em seu coração. Lembrou-se de Carlos Shangai – de como o som desse nome traduzia um espanto que ainda permanecia em seu espírito, de como ele havia escrito que era assombroso para um homem ouvir um amontoado de fonemas apenas para perceber que por trás do que ouvia se escondia, mais do que o seu nome, tudo o que ele significava: todo o seu desejo, raiva, frustração, anseios. Era isso o que ele era agora: Oklahoma, esse amontoado de sons; e era isso o que ele seria até quando deixasse de existir, e era isso o que um dia se apagaria sem deixar qualquer vestígio. Até quis perguntar para Pizarro se ele se sentia diferente, mas se calou, pois se lembrou de que, ainda quando estavam no salão de bilhar, o amigo havia dito que se sentia como se estivesse desaparecendo, que o único legado que alguém podia deixar era ter nascido, ter sido um homem, ter existido, ter morrido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pizarro, como se houvesse escutado os pensamentos de Oklahoma, continuou: Não sei se dia vou estar pronto para morrer. Ter dado origem à vida e depois morrer – é a ordem natural, não? Mas como é possível aceitar isso? Como é possível dar origem a uma vida que também vai morrer? Como manter pura toda a ternura que se sente, evitando que apodreça? Não minto: às vezes torço para que ele nunca nasça, mas isso também é assustador. É quase insuportável se sentir ligado de maneira tão visceral à vida e depois perceber que essa ligação é frágil e cambiante como tudo o que existe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calaram-se por um momento. A vontade de Oklahoma era não mais caminhar por aquelas ruas; queria estar quieto, longe da estranha e anônima música que os acompanhava, longe da sensação de agosto tristemente revisitado, longe da luz que se quebrava e do inevitável desperdício do dias que se repetiam. Em outras palavras: ia se mudando em raiva e desencanto a nostalgia que, desde a manhã, impulsionava-o. De novo veio a sensação de nunca ter se afastado, o sentimento de velhice, o cansaço contra as estações que, invariavelmente, regressavam. O que mais almejava agora era fechar os olhos, deixar de existir pelo máximo de horas possíveis, e, quando despertar, olhar com ollhos indiferentes para o próprio corpo, para os anseios sufocados (podia sentir o nome Carlos Shangai se esfarelando na noite sem ventos, fonema por fonema ia desaperecendo, sem deixar ecos) e para a juventude que ia se maculando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pizarro, que também parecia perceber o fracasso da noite, tinha o semblante triste e apavorado. Agora era um homem mudado, com um filho dentro do espírito, e o que subia ao seu rosto branco era o medo de morrer, de fracassar, de não saber ser o homem que agora era obrigado a ser, e talvez por isso o que ele um dia fora ainda se agitava com tanta fúria dentro do seu coração. Por fim Pizarro olhou para o alto, para uma fraca lua que ia saindo de dentro das trevas e que trazia, em seu rasto, estrelas igualmente pálidas e mortiças.  Depois, como quem não consegue escapar de um estado de encantamento, voltou a falar de Marina: da maravilha que seria acabar com a virgindade de uma garota como Marina aos dezessete anos. Então se calou novamente. Olhou para Oklahoma, um sorriso de cumplicidade tentou se formar em seu rosto, mas o sorriso que veio revelou apenas horror e estranheza perante tudo o que o cercava. Uma criança, Oklahoma, uma criança.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-3070659708311285675?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/3070659708311285675/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=3070659708311285675' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/3070659708311285675'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/3070659708311285675'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2008/10/ainda-no-agosto-mas-o-calor-comea.html' title=''/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-308300575054501936</id><published>2008-01-06T09:16:00.000-08:00</published><updated>2008-01-06T09:18:07.236-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='neve'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rosebud'/><title type='text'>a praça aqui perto de casa: 25 de dezembro, 01 de janeiro</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Tive vontade de fotografar a praça que fica aqui perto de casa nos dias de Natal e Primeiro de Janeiro. Em ambas as ocasiões, ao passar por lá, acabara de chover e o lugar estava vazio: crianças não brincavam no parque de diversões, ninguém caminhava por suas alamedas, e os bancos de madeira permaneciam abandonados. Debaixo do céu – que vergava-se, baixo e cinzento, sobre a abóbada formada pelas árvores – os globos nos postes de iluminação irradiavam um calor que oscilava entre o vermelho e o amarelo, e, no entanto, ainda não era noite. Devido à intensidade das chuvas, galhos e folhas recobriam o chão, e o cheiro que pairava (macio, amortecido) era o de terra molhada e ferrugem (este último cheiro era mais intenso perto dos brinquedos do parque de diversões). O chafariz, sem uso havia anos, transbordara e, com uma camada de folhas castanhas boiando sobre a superfície da água, mais parecia um charco. Também havia, junto à banca de jornal, caixas de madeiras antes usadas para o estoque de frutas. É que, nas semanas que antecedem o natal, a praça costuma ser tomada por comerciantes que vendem os frutos da estação (uvas, pêssegos, ameixas gordas e vermelhas, caquis), mas agora, finda a época de vender, as caixas tinham sido abandonadas e dentro de algumas permaneciam frutos apodrecidos, de modo que das caixas erguia-se um perfume doce, muito doce.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No dia 25 de dezembro, o contato com a praça foi de ternura e alguma comoção. Até então vinha conseguindo me manter fiel à euforia que é característica das festas no final do ano. Entretanto, ao caminhar pela praça, era como se enfim ultrapassasse as fronteiras da melancolia, instalando em mim a sensação e o medo da perda. Em outras palavras: mais do que perceber a precariedade e a miséria daquele cenário, veio em mim a certeza de que nunca voltaria a encontrar uma paisagem que me seria tão familiar – era como se me soubesse dentro daquele globo de neve que Kane, após murmurar rosebud, deixa quebrar-se no chão. Nos dias seguintes permaneci dentro dessa nostalgia banhada pela neve, e gostei de passear pela cidade que agora, após o natal, estava vazia. Podia contemplar as casas, os telhados, os poucos campanários, e até amontoados de árvores em lugares de intenso trâfego e frenesi. O ápice da tristeza foi no dia 31 de dezembro, quando, no caminho até a casa da minha namorada, passei no prédio onde ela trabalhara e onde eu a apanhara nas primeiras semanas de namoro. Há alguns meses o lugar fora posto abaixo, para dar lugar a um novo edifício, mas até então não havia compreendido o que isso significava. Deste canteiro de obras, rumei para a casa da namorada. As ruas estavam iluminadas, na distância espocavam fogos (e depois vinha um silêncio espectral) e as próprias pessoas que passavam gritando, alegres e alucinadas dentro dos seus carros, pareciam morrer tão logo viravam a esquina e as suas vozes deixavam de ser ouvidas. Depois, já acompanhado da namorada, tratei de me distrair e até deixei de lado a melancolia; talvez isso tenha acontecido porque nos comportamos como num dia normal: na tevê vimos os programas habituais, tivemos as mesmas conversas e tratamos de exorcizar de nós qualquer sentimento em relação ao passado e ao futuro. Quando, à meia-noite, todas as bombas explodiram, não me senti miserável, e conservaria esse estado de espírito caso não tivesse visitado a praça no dia seguinte. Ela ainda era o globo com a paisagem imersa na neve que Kane segurara, mas agora eu tinha a sensação de que ele já havia murmurado rosebud, deixando o vidro quebrar-se no chão. Foi isso o que pensei enquanto caminhava para casa. Nos dias seguintes, tratei de voltar à rotina, a melancolia evaporou e continuei a freqüentar os lugares que meu espírito havia dado como perdidos. O estranho, penso, é que não sinto como se tivesse encenado uma contradição.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-308300575054501936?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/308300575054501936/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=308300575054501936' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/308300575054501936'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/308300575054501936'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2008/01/praa-aqui-perto-de-casa-25-de-dezembro.html' title='a praça aqui perto de casa: 25 de dezembro, 01 de janeiro'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-2186343951674193892</id><published>2008-01-02T15:19:00.000-08:00</published><updated>2008-01-02T15:20:02.978-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='chuvas'/><title type='text'>janeiro</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Se me lembro de janeiro, lembro-me daquelas tardes de chuva que vieram após um mês de dezembro especialmente luminoso. Na verdade, o ano anterior, do começo ao fim, fora cravejado de luzes e triunfos, mas agora – chegado o ano novo – a rapariga que me acompanhara em tais conquistas descia ao mar e eu nem sequer suspeitava que nunca regressaria. Nos primeiros dias, ainda estive tomado pelo enlevo e pelo perfume do amor. A solidão inicial teve como marca longos passeios pela cidade, pois, se me lembro bem, chovia até às quatro ou cinco da tarde; depois disso nuvens estacionavam sobre os prédios, e por vezes era como caminhar à sombra de um muro onde floresciam ervas suaves e olorosas (mal sabia eu que, à sombra dos jazigos, também germinavam flores tão perfumadas quanto). Durante os passeios, andava por ruas e praças cobertas por pétalas-galhos-folhas arrancados durante as tempestades, e quase não conseguia ouvir o ecoar dos meus próprios passos. Procurava manter o espírito e, sobretudo, o corpo longe dos devaneios, embora ambos tenham me traído um par de vezes. O espírito me atraiçoou quando, durante uma caminhada, tive a suspeita de que a rapariga não descera ao mar, de que continuava na cidade, e, a cada esquina percorrida, sobresaltava-me ante a possibilidade de reencontrá-la. A traição do corpo, por sua vez, veio na esteira de uma confusão decorrente de um jogo de espelhos. Aconteceu durante uma das tardes menos solitárias, quando, na companhia de um amigo, jogava no salão de bilhar da rua santiago. Lá fora chovia aos cântaros e a umidade espalhava-se como mofo no ar, grudando nas paredes e na carne. Na mesa ao lado, um grupo de jovens divertia-se e, entre eles, havia uma miúda que julguei idêntica àquela que fugira de mim. Apenas por isso, a desejei com uma violência criminosa, e foi nesse ponto que os passeios pela cidade começaram a ganhar um aspecto de pesadelo, sobretudo quando não chovia ou parava de chover – aí descia sobre os telhados uma claridade fina e ardente como um chicote, e o mormaço que se erguia ganhava um cheiro de água podre. Quando isso acontecia, o relógio costumava marcar sete, quase oito horas, e eu gostava de passar as noites em casa, afundado na espera. Ainda me lembro da horrível sensação de deixar o amigo em casa e depois voltar sozinho no carro. Era preciso seguir pela avenida do cemitério de um extremo a outro, em meio a um trânsito que impedia o veículo de ultrapassar os quarenta quilômetros horários. O sol que caía que sobre a cidade – o último sol do dia, que vinha após horas e horas de chuva – era irisado, mas muito quente, brutal. Entrava oblíquo no carro e me maltratava o rosto e revolvia em mim aquela imprecisa, mas duradoura, sensação de amor fracassado e vida desperdiçada. Em casa, procurava refúgio em qualquer paz que encontrasse, por mais barata que fosse, e escrevia poemas, alguns até publicáveis, sobre viagens até o mar e o esplendor do mormaço e o peso das folhas de bananeiras encharcadas pelas tempestades.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-2186343951674193892?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/2186343951674193892/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=2186343951674193892' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/2186343951674193892'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/2186343951674193892'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2008/01/janeiro.html' title='janeiro'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-2810886195714107098</id><published>2007-12-22T08:47:00.001-08:00</published><updated>2007-12-22T08:56:29.347-08:00</updated><title type='text'>quase ternura</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Poderia falar da dureza do meu coração, mas, como é época de festas, falo da ternura que existe nele e que sobe à tona perante animais indefesos, raparigas que almoçam ou vão sozinhas ao cinema, e até comerciantes às portas da falência. Estes últimos parecem estar em todos os lugares: apenas em meu bairro, nos arredores da praça do teatro, há três lojas de roupas que – não sei se por estupidez ou necessidade – continuam com as suas atividades. O primeiro estabelecimento tem um nome tão estranho e pouco comercial que ainda hoje não consegui decorar: é algo como Calopicista ou Capilocista, embora nenhuma dessas palavras conste no dicionário ao qual costumo recorrer. O referido comércio abriu as suas portas há dois anos e nunca vi um cliente lá dentro. Há uma vitrine e os manequins que a habitam usam roupas que ficariam bem naqueles que pretendem viajar até o litoral. Para além dos manequins, há uma escrivaninha de repartição pública e, atrás dessa escrivaninha, uma mulher costuma dedicar os seus dias à prática do crochê. Em outras tardes, uma mulher mais jovem perambula por entre as roupas expostas com uma criança no colo. Ademais, todo o quarteirão em que fica a loja é melancólico. Ao lado, existe um asilo e, durante o crepúsculo, é comum ver dezenas de velhos respirando a fresca do entardecer afundados nas suas cadeiras de rodas. Numa das esquinas fica uma sorveteria que, talvez por um motivo de economia, só acende as suas luzes no momento em que as sombras da tarde assumem a densidade das trevas noturnas. Do outro lado da rua fica a igreja, diante da qual um pipoqueiro tem uma relação esquizofrênica com as pombas, ora alimentado-as com milho, ora recebendo-as com pedradas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A segunda loja nem sequer tem nome e se presta ao comércio de roupas usadas. A tática usada pela dona do estabelecimento, para atrair clientes, está mais próxima da mendicância do que das práticas comerciais. Ela espera passar diante da loja uma pessoa e a aborda e, suplicante, diz que, apesar de as roupas serem velhas, são de boa qualidade e não aceita negativas como respostas, de modo que o eleito não escapa sem ser rude ou sem, ao menos, conhecer a loja. Por sua vez, o terceiro estabelecimento pretende ser um Calopicista-Capilocista com mais classe, cuja elegância já pode ser lida na fachada: &lt;em&gt;Sursum Corda&lt;/em&gt;. Acredito que o emprego do latim seja um provável vestígio dos conhecimentos adquiridos durantes os anos em que a proprietária da loja freqüentou cursos pré-vestibulares, período no qual fomos colegas de classe. Este passado em comum não deixa de ser uma relação de parentesco, o que torna ainda mais aflitiva, ante os meus olhos, a queda do &lt;em&gt;Sursum Corda&lt;/em&gt;. Não que tenhamos sido amigos. Ela nunca esteve mais próxima de mim do que uma dessas estrelas que, em noites de inverno, irradiam um fulgor frio e esverdeado. Uma vez deixada no passado, às vezes acontecia de eu me lembrar com encanto e imprecisão dos seus longos e ondulados cabelos castanhos, a pele mais morena do que pálida, modos que se pretendiam aristocráticos ao andar, falar, talvez até ao se entregar aos homens – e ao vê-la após anos, mais do que o enervante reencontro com uma beleza que deveria permanecer nos mausoléus da memória, percebo que tal beleza permaneceu apenas para esmorecer aos poucos, e, ainda mais do que isso, percebo que sou reconhecido por esse encanto crepuscular e muitas vezes, ao passar diante da loja, sinto-me como um personagem de Dostoiévski que está exilado na Alemanha ou França. Ele passeia por uma cidade e observa o desespero de uma russa linda, nobre, e, no entanto, falida. A jovem percebe que está diante de um russo, nota que ele também sofre dos nervos, que não tem consigo resistir às vigarices dos alemães ou franceses, e quase se joga aos pés do homem. Paizinho, me ajuda, paizinho, e o homem, guiado pelo sonambulismo de quem se desloca entre dois delírios apenas diz Coração ao Alto, minha menina, Coração ao Alto, não posso dispor de nem sequer uma moeda. Assim segue caminho, retomando a lucidez alguns metros adiante, ou melhor, retomando uma lucidez que se situa entre o desespero, a impotência e o escárnio. Olha para trás. A mulher desapareceu, mas, diante de uma outra loja, um velho corcunda, vestido de vermelho, dança e faz caretas com o rosto na tentativa de atrair clientes. Eles estão tendo o que merecem, vocifera alguém com um senso de justiça mais próximo do divino. O russo concorda e, tentando rir, inicia um solilóquio que vai desencadear mais febre e delírio. Sim, eles estão tendo o que merecem.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-2810886195714107098?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/2810886195714107098/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=2810886195714107098' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/2810886195714107098'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/2810886195714107098'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/12/quase-ternura.html' title='quase ternura'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-7190009664149125199</id><published>2007-12-17T16:53:00.000-08:00</published><updated>2007-12-22T05:32:13.751-08:00</updated><title type='text'>balões de pensamentos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Durante anos pensei que o meu gosto por perambular pela cidade viera de filmes como A Doce Vida, A Noite, O Medo do Goleiro Diante do Pênalti, ou até Depois de Horas – histórias de sujeitos fadados à errância e à contemplação. Mas a verdade é que, mentindo para mim mesmo, fingia ignorar que as caminhadas pela cidade haviam tido início bem antes de eu assistir aos filmes citados. Contava onze ou doze anos quando comecei a voltar andando da escola. Destes primeiros passeios, lembro-me do aroma de biscoitos de polvilho que se erguia acima dos telhados de um fábrica de bolachas. Alguns quarteirões adiante – na mesma rua, a última construção antes do rio – funcionava um bar que exalava um nauseante cheiro de frango cozinhado na gordura pobre. Neste bar, dentro da obscuridade que se dissolvia numa claridade vespertina e poeirenta, homens bebiam e jogavam bilhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não mudei o caminho até os anos do colegial, quando, após um assalto ocorrido nas imediações da fábrica de cerveja, o pai me aconselhou a voltar pelas ruas do centro. Não sei se a luz também envelhece – talvez as reminiscências estejam influenciadas pela memória de uma tarde em junho, um desses dias menos frios do inverno, quando o céu permanece sem nuvens e a luminosidade que desce não agride o rosto – mas lembro de caminhar por ruas muito claras nas primeiras vezes que regressei da escola pelo centro. No último ano do colegial eu e um amigo íamos até a Praça do Teatro, sentávamos num banco e lá permanecíamos por horas, rindo dos homens que víamos passar. Numa tarde este meu amigo tinha dinheiro e resolvemos gastá-lo em cerveja. Foram poucas garrafas, mas a minha inexperiência de então causou uma respeitável vertigem, e na hora de volta para casa só conseguia manter o equilíbrio se andasse em linha reta, muito depressa, e nunca parando. Uma façanha impossível de ser realizada no tumulto das ruas da cidade velha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No primeiro dia de aulas no cursinho, ao descobrir que só sairia da escola após as sete da noite – e com vergonha de pedir que o pai viesse me buscar -, fiquei tão inseguro que por pouco não entrei em desespero. Uma garota bonita (robusta além da conta, mas bonita) notou a minha apreensão e me ensinou – a mim, que estava tão viciado nas caminhadas que desconhecia qualquer outro meio de ir do Ponto A ao Ponto B – que ônibus deveria pegar. Hoje percebo que ela tinha por mim um encantamento maternal, e um mínimo de habilidade com raparigas poderia transformar esse enlevo em tensão e depois triunfo sexual. Por fim o meu sangue aristocrático falou mais alto e, como um lorde passeia pelas floridas alameadas do seu castelo após caçar faisões, resolvi desbravar as ruas da cidade velha. Logo passei a acreditar que, quanto mais tarde voltava para casa, mais incríveis e singulares eram as minhas aventuras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é o prelúdio da história dos passeios pela cidade. Quando pensava nisso, apontava como causadores dos meus anseios a inquietação juvenil aliada à influência de filmes italianos dos anos 50 e 60. Como disse no começo, a causa não é esta, e só fui perceber o meu engano quando, meses atrás, reencontrei uma caixa velha gibis – quase todos do Homem-Aranha – comprados durante a infância. Nestas aventuras, o que mais me fascinava (ainda fascina) era observar a solitária e insólita rotina daquele herói que vivia num miserável apartamento na Rua Chelsea. Vilões como o Escorpião e o Doutor Octopus eram temíveis, e, quando apareciam, só podiam ser derrotados após um grandioso embate - no entanto, as minhas aventuras prediletas eram aquelas que mostravam o aracnídeo pulando de telhado em telhado durante toda a madrugada; em todos os quadrinhos os balões de pensamentos (uma técnica narrativa que não vejo mais) revelavam as angústias e as confusões do herói, sendo que, entre uma ponderação e outra, ora o Homem-Aranha (no alto de um prédio) observava o frenesi de Nova York, ora enfrentava batedores de carteira. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje as aventuras já não seguem este padrão. A política de tolerância zero praticamente erradicou os batedores de carteiras das ruas de Nova York (e junto com estes pequenos marginais, ficaram abolidos as ruas sujas, a luz néon brilhando na fachada de hotéis ou restaurantes chineses, o nevoiro que tomava conta dos becos) e o Homem-Aranha já não é um solitário: está casado e agora luta na companhia de outros heróis (e todos, &lt;em&gt;good guys e bad guys&lt;/em&gt;, o chamam pelo nome: não é mais maldito aracnídeo, é Peter), livrando o planeta de ameças mais aterradoras que o aquecimento global. Ao pensar nisso, a melancolia que experimento não é diferente da que sinto quando percebo que andar por aí já não é tão divertido. Envelhecer é triste, mas ao menos oferece o conforto de ser uma tristeza necessária, mas qual a necessidade de lançar um herói nas garras de um ocaso durante o qual ele deixa de ser um herói? &lt;em&gt;Quantos Césares fui (Na alma, e com alguma verdade; / Na imaginação, e com alguma justiça; / Na inteligência, e com alguma razão)&lt;/em&gt; , diz aquele poema de Álvaro de Campos, e talvez só seja possível subir à altura dos césares andando solitário por ruas manchadas de néon – quando os inimigos não são mais do que batedores de carteiras e com um levíssimo (passível de desgarrar-se a qualquer instante, perdendo-se nas distâncias celestiais) balão de pensamento pairando acima de nossas enfadonhas existências.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-7190009664149125199?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/7190009664149125199/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=7190009664149125199' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/7190009664149125199'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/7190009664149125199'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/12/bales-de-pensamentos.html' title='balões de pensamentos'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-6098132287588388241</id><published>2007-12-08T09:35:00.000-08:00</published><updated>2007-12-08T10:11:12.344-08:00</updated><title type='text'>o cheiro do napalm pela manhã</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Talvez aquele ano não tenha sido o pior de todos. Talvez tenha sido apenas o ano da derrota ou, antes, o ano em que vivi segundo os padrões de uma vida impossível: li muito, escrevi mais ainda, e no resto do tempo vagava pela cidade, entre a insônia da carne e o sonambulismo do espírito. Por isso não me esqueço das garotas que conheci nesses meses.  Eu tinha o corpo aberto para qualquer uma delas, e talvez estivesse disposto a pagar qualquer preço por um amor, ou ao menos por sua sombra, que não daria em nada. Depois vieram os meses da regeneração, da vergonha também. Como foi possível viver daquele jeito? Como foi possível passar tantas manhãs e tardes sem estudar? Como foi possível ter o espírito marcado pela promiscuidade e escapar com a carne incólume? E em meio a isso, em meio ao desprezo pelas excentricidades de outrora, colhi o amor ou ao menos a sua sombra. Foi brando, como se o próprio presente fosse visto através das névoas de uma futura saudade, como se toda a cidade (todos os prédios, e as árvores, e as luzes - tudo isso, menos a carne) tivesse se tornado incorpórea, como se eu habitasse o corpo de um morto e perdurasse no crepúsculo por mais alguns minutos. E então também isso passou e tudo se assentou assim em meu espírito: um ano ruim, um ano bom, e o ano presente, embora o agora também fosse cercado por fronteiras incertas, vaporosas. Foi assim que, quinta-feira, aproveitei a noite  para dar um passeio pela cidade. Quando a testa ficou úmida de suor - e quando o vento gelado da noite tocou esse suor e trouxe uma sensação de frescor - foi como se eu movesse dentro dos limites daquele ano que ficou marcasdo como ruim, o pior de todos, mas agora me sentia alegre e queria percorrer todas as velhas esquinas e entrar em todos os velhos lugares. Até me lembrei de Bill Kilgore: o tenente-coronel de &lt;em&gt;Apocalipse Now!&lt;/em&gt;, aquele que usava chapéu de cowboy e que, ao observar os seus soldados surfando nas ondas de uma praia devastada, aspira o ar da manhã e, com o seu sotaque texano, diz adorar o cheiro do napalm pela manhã. &lt;em&gt;Tem um cheiro de vitória.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-6098132287588388241?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/6098132287588388241/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=6098132287588388241' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/6098132287588388241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/6098132287588388241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/12/o-cheiro-do-napalm-pela-manh.html' title='o cheiro do napalm pela manhã'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-5573612240579721891</id><published>2007-11-30T10:19:00.000-08:00</published><updated>2007-12-01T07:41:30.748-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dean Martin'/><title type='text'>a amiga americana</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Em &lt;em&gt;O Amigo Americano&lt;/em&gt;, Tom Ripley vive em Hamburgo como um negociante de artes. Na verdade, Ripley é um falsário entre falsários: além de vender as obras assinadas por um pintor que finge estar morto, ele próprio assumiu o nome-rosto-exílio de um homem cuja identidade foi roubada e que nunca poderá voltar para casa &lt;em&gt;(o que há de errado com um cowboy em Hamburgo?&lt;/em&gt; – indaga Ripley, trajado como se vivesse nos ermos do Texas ou Missouri, e a pergunta dá a medida de seu deslocamento e desespero). É na condição de negociante de artes que ele conhece Jonathan Zimmerman: este é um homem honesto, um antigo restaurador, hoje emoldurador – e também um sujeito que sofre de uma incomum doença no sangue, e por conta disso talvez esteja fadado a morte. Quando apresentado a Tom Ripley, Jonathan recusa-se a apertar a sua mão. Com um tom de desprezo na voz, diz &lt;em&gt;eu já ouvi falar de você&lt;/em&gt;. Apenas por isso, em retaliação a essa demonstração de asco, Ripley decide arruinar a existência de Jonathan Zimmermam. Ao ser questionado pelo próprio Jonathan sobre as suas motivações, ele relembra o que se passou quando foram apresentados e afirma &lt;em&gt;é um motivo bom o bastante, não?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O filme eu vi há algumas semanas, mas esta frase – &lt;em&gt;é um motivo bom o bastante, não?&lt;/em&gt; – foi lembrada por mim ontem. Eu escutava Dean Martin e pensava na época em que ainda não escutava Dean Martin; a época na qual pensava que Martin tinha sido apenas um ator cujo melhor papel fora o do bêbado no faroeste &lt;em&gt;Onde Começa O Inferno (Rio Bravo)&lt;/em&gt;. Foi há anos, quando ainda estudava Direito. Uma colega tinha uma irmã que vivia nos Estados Unidos; uma cidade bem ao norte, na fronteira com o Canadá, e uma vez por mês ela mandava fotos da neve e às vezes das flores que cresciam na neve. Esta menina que vivia na fronteira com o Canadá tinha um nome estrangeiro, também isso me atraiu. Naqueles anos ainda impúberes eu realmente acreditava que teria mais sorte com um rapariga de nome Isabelle, ao passo que um abismo intrasponível me separava das isabelas ou isabéis. Depois, e não me lembro por que falávamos sobre isso, a minha colega disse que a sua irmã de nome estrangeiro gostava de ouvir Dean Martin. Por isso comecei a gostar dela – porque ela ouvia Dean Martin – e se alguém me perguntasse sobre os meus motivos eu bem que poderia parafrasear Tom Ripley: é um motivo bom o bastante, não?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Meses depois a rapariga de nome estrangeiro voltou para o sul e a conheci. Não só o nariz, também a sua boca era fina e pequena e, no entanto, docemente sanguínea. A pele era clara, de uma palidez igualemente forasteira, enquanto os cabelos ondulados mal passavam da altura do pescoço. Aliás, devo dizer que, debaixo do sol, o corpo dessa menina sofria metamorfoses fulgurantes: o tom castanho (e petrificado) dos olhos assumia uma liquidez cor de mel; o rosto, apesar de continuar claro, afogueava-se e a boca vermelha e singela chegava a se intumescer, quase a desabrochar; e os cabelos ganhavam um brilho avermelhado. Com tudo isso, os meus motivos, que já eram bons o suficiente, tornaram-se incontestáveis. Todavia, não foi das mais vitoriosas a relação que tive com ela. Descobri que o abismo que me separa da isabelas também me separa das isabelles e demais miúdas de palidez e nome estrangeiros. Está certo, trocamos algumas palavras, até risos, e durante uma tarde de terça-feira fomos ao cinema. A despeito de não ser muito, também não é pouco. E não é por despeito que digo que, nas semanas que sucederam o seu retorno, ela viveu o ápice de sua beleza que florescera no norte e que agora vinha ao sul. A doce e branda claridade de abril-maio não tardou em ir embora e, no outono seguinte, quando retornou, já não colheu qualquer metamorfose. O que me leva a pensar que talvez seja ainda mais breve o esplendor das isabelles que ouvem Dean Martin e que se transformam sob a luz e que às vezes fotografam as flores que crescem em meio à neve. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-5573612240579721891?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/5573612240579721891/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=5573612240579721891' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/5573612240579721891'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/5573612240579721891'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/11/amiga-americana.html' title='a amiga americana'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-4124781333728192938</id><published>2007-11-27T07:55:00.000-08:00</published><updated>2007-11-28T12:19:50.834-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Brandemburgo'/><title type='text'>passeios</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Pode ser que a falta de fôlego (tão logo alcanço a Praça do Teatro, sinto ardentes e irrespiráveis o ar e a luz) não seja sinal de velhice. Talvez a cidade já não me seduza como antes. Muitas vezes sinto que todas as esquinas e caminhos foram desbravados, de modo que não é possível ir adiante. Seria o mesmo que tentar prorrogar o período das grandes descobertas e navegações até os séculos XIX e XX. Não, a rota para as Índias já foi traçada, a América já foi encontrada – todas as caravelas lançaram-se ao mar, naufragaram as que não alcançaram o seu destino, e o Encoberto permanece encoberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse tudo isso a um amigo, semanas atrás, e ele me respondeu que é sempre possível encontrar um novo atalho para fronteiras bárbaras. Sursum corda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concordei, mas dias depois – era tarde de sábado, fui até o quintal e olhei para o sol a fim de me decidir, e o que percebi foi o vagoroso, quase impercetível fluir das horas escaldantes, o cheiro da terra queimada, e os ventos pesados e espessos que mal agitavam as folhas das bananeiras – usei o carro para ir até o centro comprar um livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto dirigia, lembrei-me dos dias que vieram após a morte da avó. Quando eu passava as manhãs – junto da mãe – rexemendo nos armários, decidindo o que seria guardado e que iria para o lixo. Um dos achados mais insólitos foi um verde olho de vidro que apareceu no fundo de uma gaveta. Também encontrei inúmeros dentes dentro de uma caixa de sabonete e, ao lado, uma dentadura de pelo menos 30 anos. Depois, deparei-me com uma enferrujada câmera fotográfica; o revólver que pertencera ao avô na década de 50; porcelana e cristal em excelente estado; caixas (de lata) de biscoitos. À medida que revirava tudo isso, sentia-me sujo, como se tocasse objetos dignos de repugnância. No entanto, isso não era o pior. O pior era levar os armários e demais mobílias (comidas por cupins) até o quintal e, com uma marreta, reduzi-las a pequenos pedaços de madeira, depois enfiar tudo numa carriola e jogar na caçamba que fora alugada. Após um dia de trabalho assim – que terminava pouco depois das cinco horas – era impossível permanecer em casa. Eu saía e ia muito além das praças do Teatro e da Catedral. Andava até os limites da cidade velha. Até os quarteirões onde os prédios acabavam e, em meio a poeira e a lama dos terrenos baldios, começavam novamente residências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do dia da morte da avó (início de outubro) até as festas em dezembro quase não choveu. Se me recordo bem, o estio terminou no entardecer da véspera de natal. Eu e o pai tínhamos saído para alimentar os animais da praça quando um aguaceiro nos apanhou. Escondemo-nos debaixo de uma marquise. A chuva não chegava a ser forte, mas os pingos eram grossos, e, vez ou outra, um sopro de vento soltava um frêmito das copas das árvores. O ocaso não foi mais do que uma penumbra cinza pousando sobre os telhados, como se as nuvens estivessem cada vez mais baixas. As luzes nos postes acenderam-se e, por um momento, foi como se esse céu plúmbeo estivesse cravejado de gordas estrelas douradas. A essa altura, a chuva caía fraca, embora correntes de vento ainda brandissem os galhos das árvores, mas agora sem qualquer frêmito. Eu não sabia se considerava tudo aquilo ou bonito ou triste ou apenas conveniente para a data e para o meu espírito – sabia apenas que era inútil, que o entardecer ficaria em mim como um vislumbre de beleza ou ternura e que às vezes eu sentiria a necessidade de resgatá-lo, mas apenas isso; nenhuma esperança e nenhum renascimento. De qualquer modo, a ternura perdurava quando saímos da proteção da marquise e caminhamos até o jardim coberto por pétalas amarelas e iluminado por luzes que ardiam (um fulgor avermelhado, perto de se extinguir) em globos que lembravam lanternas japoneses. Tal o cenário: o céu cinza, nas ruas um brilho dourado, dentro da praça chamas escarlates, o chão coberto por pétalas de flores e bosta de pássaros que tinham assumido a textura de um musgo escorregadio, os bancos de madeira em ruínas, e debaixo de um deles um cachorro também perto da extinção, que pouco ligou para a comida deixada por mim e pelo pai. No caminho de volta, ao passarmos diante do bar onde os homens se reúnem para jogar cartas e dominó, fomos saudados por um sujeito que entrou em seu carro e saiu em disparada. A ternura começava a se abrandar, uma nova sombra de asco avizinhava-se, e não apenas isso – exaustão também, cansaço de existir na cidade, a falta de ânimo para sair nos sábados seguintes e procurar garotas e ficar embriagado como aquele homem que, saudando a todos, saía alucinado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje quase já não saio para passear, mas às vezes, durante uma dessas minhas raras deambulações, até alcanço ruas que me são desconhecidas. Foi assim na última sexta, quando, aproveitando que nos dias de calor a noite demora a pousar, decidir ir ao sul de uma avenida larga e habitada por prédios de no máximo dois andares – um arremedo do que imagino ser a Hollywood Boulevard. Dobrando esquinas angulosas, fui me afastando cada vez mais da avenida. Quando dei por mim, perambulava por uma rua invadida pelo mato, sendo obrigado a desviar de galos. Ao atingir o ponto mais ao sul possível, comecei a subir. Tomei uma rua de início paralela à avenida, mas que com esta convergiria ao oeste, na sua numeração mais alta. A intersecção, percebi com uma antecedência de duzentos metros, seria ao pé de um auspicioso edifício erguido há poucas semanas. À medida que me aproximava, mais ermos ficavam os quarteirões (durante todo o trajeto não houve nem sequer uma silhueta de mulher que eu pudesse perseguir). Por fim cheguei a uma praça que me pareceu vazia, onde, no lugar que deveria pertencer ao coreto ou ao chafariz ou à imagem do soldado desconhecido, havia a estátua de uma carruagem conduzida por um anjo – o que me pareceu ser uma evocação dos Portões de Brandemburgo. Olhando com mais atenção, vi um bando de velhos que, na companhia do seus cães ou netos, descansavam nos bancos (brancos como mármore), outros exercitavam-se sob a diáfana (até meridiana) luz do entardecer. Não é possível ir adiante, pensei comigo mesmo, e iniciei o caminho de volta. Enquanto caminhava ao largo da praça e do condomínio, até pensei em Kaváfis, nos bárbaros que nunca haverão de chegar (pois aqui já estão) e na espera que não existe e que talvez nunca tenha existido. O que resta é morrer sob o sol, como se nunca tivesse havido noite ou brumas que se ergueram na distância e roeram os ossos dos encoberto e outros infantes ou deuses. Estes, disse a mim mesmo num dos meus delírios de fuga, jazem em outras fronteiras; além desses falsos portões e além dessa luz límpida, duradoura, inócua. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-4124781333728192938?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/4124781333728192938/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=4124781333728192938' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/4124781333728192938'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/4124781333728192938'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/11/passeios.html' title='passeios'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-9055187988460364126</id><published>2007-11-21T18:40:00.000-08:00</published><updated>2007-11-22T05:01:27.282-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Bandeira'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Kaváfis'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Eliot'/><title type='text'>Três Poetas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;1.&lt;/strong&gt; T.S. Eliot foi o primeiro poeta que tentei ler &lt;em&gt;a sério&lt;/em&gt;, aos dezenove anos, e ainda hoje mantenho muitas das minhas primeiras impressões: o fascínio por uma erudição que não se fecha em si mesma – que vai ao encontro da &lt;em&gt;emoção&lt;/em&gt; (ou&lt;em&gt; fuga da emoção&lt;/em&gt;, para adequar o texto a uma idéia cunhada pelo próprio Eliot) e de um pensamento sólido e coeso, dando origem a uma linguagem apurada, capaz de criar algumas das mais belas imagens que já encontrei na poesia. Apenas puxando pela memória, evoco as gaivotas que, na aurora onde se entrecruzam dois sonhos, adejam sobre a praia; os ossos esquecidos sob o Ganges; a luz dos archotes queimando rostos marcados pelo estoicismo e desolação; a ardente rosa do oblívio e da piedade; os pensamentos que fluem cruéis como a torrente de um rio na natureza de uma tarde de verão; o céu crepuscular estendido no horizonte como um corpo morto; o cadáver do alto e belo Flebas sendo roído pelas correntezas submarinas; o Rei Pescador; a chegada das chuvas em Abril revolvendo a terra semeada por raízes e flores agônicas; o cão que desenterra os mortos; o vento que uiva contra as portas; o estrondo do trovão sobre as montanhas; o lixo acumulado no leito do rio ao fim de um piquenique; a Palavra inexpressa. Essas imagens tiveram um impacto tão grande em mim que eu, ao tentar os meus primeiros poemas, busquei emulá-las, e vez ou outra até conseguia escrever versos dignos de um prodígio. Ofereço como exemplo os versos abaixo, recordados pelo amigo Nuno Dempster no comentário da postagem anterior:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já quatro vezes me tinham apontado uma arma.&lt;br /&gt;A última ameaça fora a mais terrível de todas,&lt;br /&gt;fez-me sonhar com um mar furioso. Era noite&lt;br /&gt;e os nossos rostos eram moldados pela brisa&lt;br /&gt;que nos meses quentes antecepe as tempestades.&lt;br /&gt;Do meu lado, num miramar, o pai&lt;br /&gt;e seu último irmão vivo;&lt;br /&gt;este agonizava, e com o câncer e a tosse&lt;br /&gt;veio o desejo de ser batizado naquela praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Vejam", disse o tio, fitando o mar e as rochas,&lt;br /&gt;"Tudo isto é Deus, sim, tudo isto é Deus,&lt;br /&gt;não preciso que um sacerdote cinja a minha fronte".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre a sequíssima areia caminhou rumo à praia.&lt;br /&gt;A água do mar mostrou-se apenas salgada,&lt;br /&gt;corroeu a sua carne dorida, exasperou o espírito&lt;br /&gt;sedento de palavras, signficados, símbolos.&lt;br /&gt;Aflito e cobiçando ser pó, sentou-se nas dunas:&lt;br /&gt;o seu derradeiro verso era os vermes em sua face&lt;br /&gt;iluminada pelo sol que já irrompe fustigante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Lázaro morreu uma segunda vez."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2.&lt;/strong&gt; Seria odioso defender o meu encanto por Manuel Bandeira com a alegação de que se trata de um conterrâneo. Todavia, sou lembrado disso após ler qualquer poema seu – logo percebo que os versos foram escritos por um homem que nasceu sob o mesmo sol que, todas as tardes, vejo estiolado no céu poente. Um sujeito que vivia em cidades parecidas com a minha; e as miúdas cantadas por ele (seja Jacqueline que morreu menina e que morta era mais bonita do que os anjos, ou as três moças do Sabonete Araxá, ou as mulheres puras o bastante para saciar a vontade dos homens impuros, ou a imensamente bela e até redentora mulher que é apresentada em seu &lt;em&gt;Madrigal Melancólico&lt;/em&gt;) eram feitas da mesma luz – a mesma luz fugaz e precária – que afogueia os rostos das meninas que vejo andar pelas ruas. Mas escrever apenas isso não basta. Também admiro a riqueza de um pensamento que sempre interpretei marcado por inversões ou ambigüidades. Versos a princípio introspectivos se mostravam fatalistas. Em contrapartida, havia poemas que, a despeito de um começo sombrio, desaguavam numa terna e humilde reflexão; e nunca percebi tanta alegria conspurcada de tristeza e tanta melancolia sufocada por euforia inconseqüente, alucinada. Acredito que &lt;em&gt;o eterno&lt;/em&gt;, em Bandeira, nunca foi uma obsessão: essa sanha de revelar-se superior, de destilar teorias sobre a imbecilidade alheia. Em Bandeira, a eternidade decorre de um passeio pela praça de uma cidade poeirenta – e, se ele diz &lt;em&gt;a vida é&lt;/em&gt; &lt;em&gt;agitação feroz e sem finalidade&lt;/em&gt;, diz com uma raiva que &lt;em&gt;não é&lt;/em&gt; raiva e com um desprezo que &lt;em&gt;em&lt;/em&gt; &lt;em&gt;momento algum&lt;/em&gt; é desprezo. Apenas escreve como quem dá de ombros, e também foi assim – como quem dá de ombros - que a sua poesia aproximou-se de mim, tornou-se íntima, essencial para a noção de identidade que julgo trazer no sangue. Pois, se para mim o &lt;a href="http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/10/l-h-dias-como-este.html"&gt;&lt;em&gt;mississipi&lt;/em&gt; &lt;/a&gt;nunca existiria sem Faulkner, tampouco existiria sem Manuel Bandeira.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;3.&lt;/strong&gt; Embora nascido em Alexandria, Konstantinos Kaváfis é tido como o melhor poeta grego no século XX. Motivos para isso não faltam. Em Kaváfis, o que mais me impressiona é o diálogo que ele estabelece entre o eterno e a sua condição de homem contemporâneo. Aliás, acredito que a excelência de seus versos pode ser encerrada numa fórmula simples e fácil apenas na aparência: o encontro entre a concisão (seus poemas eram breves) e uma linguagem cristalina, tão solar quanto atemporal. O principal tema de Kaváfis é o passado: seja o passado do corpo (a interminável evocação dos amores hedônicos da mocidade), seja o passado da sua herança cultural – ele que trazia no sangue o ocaso de uma luz ora bizantina, ora helênica, e que muitas vezes se fundiam num único e crepuscular ardor. Dos poemas escritos por Kaváfis, sempre me intrigaram os que receberam os seguintes títulos: Dias de &lt;em&gt;1903, Dias de 1901, Dias de 1896&lt;/em&gt; – como se o que ficasse fosse apenas a memória de dias e, em muitos casos, nem isso. Ainda sou jovem, mas quando olho para trás não posso deixar de constatar a verdade desses versos e reminiscências. Dos dias de 97 não consigo evocar mais do que os primeiros passeios noturnos pelas ruas da cidade velha, rostos e corpos de garotas (rostos e corpos que permanecem, em mim, &lt;em&gt;como belos corpos de mortos que nunca nunca envelheceram, / com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes, / jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas&lt;/em&gt;, e como isso dói) e o sol da tarde entrando no segundo andar do Pato. Dos dias de 98, as memórias não são muito diferentes. De 99 sobrevivem vestígios de um amor quase puro que senti, isso em dezembro, e que perfume forte tiveram as flores naquele verão. Assim fluem as lembranças: em 2002 um novo encontro com o amor e mais, a certeza de triunfar sobre ele; em 2004 e 2005, os meus anos mais mundanos, cheiro de bebida, corpos de mulheres cobertos por um suor que se misturava com a doçura da água de colônia, o reflexo das luzes no asfalto após uma noite de chuva, a incrível raiva e frustração de um desejo que nunca arrefecia, o olor de samambaias na noite em que a avó morreu, e depois, em 2006, nova possibilidade de triunfar sobre o amor, uma última convulsão de fúria sensual, a luz amarela que descia do alto dos postes, as muitas noites de chuva, a realidade assumindo uma dimensão mais etérea do que nunca. De tudo isso me lembro: é pouco, e percebo que esquecerei ainda mais nos próximos anos – a não ser que eu me depare com a &lt;em&gt;madeleine&lt;/em&gt; que, milagrosa, irá me restituir todas as sensações e minutos do tempo evanescente, apesar de eu saber desde já: a devolução de uma realidade em fuga não impede que essa continue fugindo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-9055187988460364126?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/9055187988460364126/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=9055187988460364126' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/9055187988460364126'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/9055187988460364126'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/11/trs-poetas.html' title='Três Poetas'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-6136405574826298335</id><published>2007-11-17T18:56:00.000-08:00</published><updated>2007-11-17T19:05:16.955-08:00</updated><title type='text'>últimos dias de aulas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Estávamos no segundo andar do Pato e formávamos um semi-círculo ao redor da única mesa de bilhar em condições de uso (a outra mesa fora coberta por um plástico grosso e imundo). Dos cantos do cômodo, exalando um cheiro gelado, pedaços de gesso, tijolos, sacos de cal e cimento pela metade. O sol entrava oblíquo, após roçar – também inclinado – a cruz da catedral e o ponto mais alto das árvores; um sol fino, ardente e silencioso de começo de verão. Mas pode ser que o silêncio não habitasse aquela luz que era, a um só tempo, pura e impura: o silêncio parecia transcendê-la para, no instante seguinte, revelar-se aquém dela. Para não pagar mais do que uma ficha, tínhamos usado o truque de bloquear as entradas de todas as caçapas. As bolas não caíam. Apenas deslizavam, silentes e sem qualquer atrito, sobre o feltro da mesa, entrando na luz e saindo da luz como se isso não significasse nada (o que, de fato, não significava). A graça do jogo, agora sabíamos, era matar as bolas e escutá-las dentro da mesa;aquele ruído de mármore correndo sobre a madeira e depois um baque surdo e em seguida o silêncio. Ninguém tinha vontade de falar porque era o último dia de aulas e tínhamos a consciência de que fracassaríamos na prova do domingo. Tal insucesso fora auguriado por todos há pelos seis meses, mas o que ninguém suspeitara é que o tempo jogado fora assumiria a concretude de uma carcaça, e mais – por vezes o cadáver desse ano desperdiçado, diante de nós, surgia como o cadáver do pai, ou, em casos extremos, aparecia como o nosso próprio corpo morto. Por isso não jogamos até depois do anoitecer. Encerramos as atividades quando havia sol e caminhamos juntos por alguns quarteirões. Depois o grupo se dispersou. Mas ainda estávamos unidos quando cruzamos a Praça da Catedral. Quando a luz – que ainda descia oblíqua e ansiosa – roçava a cúpula da igreja e os verdes ramos das árvores.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No outro ano, aconteceu a vitória. Saímos da escola após a primeira troca de professores, ainda antes das duas da tarde. Não me lembro do nome do rapaz – não conversávamos muito, mas nas últimas semanas, com a progressiva escassez de alunos, tínhamos nos aproximado – que nos levou de carro até o mais elegante centro de compras da cidade. Também não recordo o que procurávamos lá. Imagino que eram garotas, e é certo que as observamos, pelos corredores ou diante das vitrines das lojas. Depois, ao percebermos que qualquer abordagem seria ridícula, seguimos para uma lanchonete nas imediações da Avenida Nove de Julho. Era divertido bancar o vagabundo durante a tarde de um dia útil; um papel que eu já desempenhara antes, mas nunca com tantos recursos, dispondo de um &lt;em&gt;chauffeur &lt;/em&gt;que me levaria onde quer que desejasse ir. Pedimos sanduíches, sucos e comemos na área externa da lanchonete. Não havia ninguém por perto. O sol estava brando e cristalino, e a direção para a qual soprava o vento afastava o cheiro de gordura e trazia um quase imperceptível perfume de árvores e flores no final da primavera. Após o lanche, o &lt;em&gt;chauffeur&lt;/em&gt; sem nome disse que precisava ir embora. Enquanto nos despedíamos (estávamos todos na esquina), meu pai passou de carro e me viu. Estavam com ele minha mãe e a irmã. Creio que retornavam de alguma consulta médica e, ao me avistarem, gritaram e acenaram, não sei se bravos ou apenas surpreendidos. Tive medo, mas o veículo dobrou uma esquina e não retornou. Caminhamos rumo aos quarteirões da cidade velha, onde era possível jogar bilhar. Com o Pato às portas da falência, decidimos ir a um estabelecimento mais ao sul – este de reputação duvidosa. No trajeto vimos um homem e um iguana. O lagarto, como se fosse um pássaro monstruoso, repousava no ombro do seu dono, mas em dado momento saltou ao solo e, sempre muito veloz, correu até a pequena árvore que ficava diante da loja, escalando-a. Contemplamos a cena com asco, embora também tivéssemos o espírito calmo, donos de uma tranqüilidade de que observa um evento apenas porque este é curioso. No salão de bilhar não encontramos nada que fosse duvidoso ou ambíguo: vimos uma fileira de mesas e o sol, que entrava pela porta descida até a metade, pousando sobre algumas, o que ofuscava e feria os olhos. Nos cantos, homens feios conversavam com mulheres feias. Para minha vergonha, pois tinha a fama de ser o jogador mais hábil, perdi várias partidas na seqüência. Não podia terminar o ano daquela forma, humilhado, e, assim como Shane deixa para trás os planos de ser um bom homem apenas para não ser surrado diante do garoto que o admira, tentei sorrir com o canto da boca e anuncei que venceria todos os jogos restantes. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-6136405574826298335?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/6136405574826298335/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=6136405574826298335' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/6136405574826298335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/6136405574826298335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/11/ltimos-dias-de-aulas.html' title='últimos dias de aulas'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-4043615337993826600</id><published>2007-11-15T18:31:00.000-08:00</published><updated>2007-11-18T08:10:43.260-08:00</updated><title type='text'>sobre a impossibilidade de estar alegre</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Muitas vezes chego a desprezar o elogio que se faz do visceral. Como se o homem pudesse ser apenas redimido pelo que possui de animalesco.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não que esses apetites não rebentem em mim: rebentam com tanta força – e são calados a um custo tão alto – que há em dias em que não espero mais do que uma alegria calma. Essa alegria sem qualquer aspereza, que às vezes se confunde com um desejo de evasão, um suave anseio de fuga. Como se fosse possível não estar morto e também não estar vivo. Estar, em suma, o mais próximo possível do não-existir, ou melhor, do não-sentir. Todavia, assim como o animalesco e o inumano (uma vez passada a fúria) despertam para o humano, &lt;em&gt;o que não é morte é vida&lt;/em&gt;, e não é possível estar em outro lugar além de mim mesmo. Aliás, pode ser que essa calma alegria não seja mais do que uma tristeza pacífica. Consegui-la já é conseguir muito.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-4043615337993826600?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/4043615337993826600/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=4043615337993826600' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/4043615337993826600'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/4043615337993826600'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/11/sobre-impossibilidade-de-estar-alegre.html' title='sobre a impossibilidade de estar alegre'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-1758724744260579255</id><published>2007-11-14T18:55:00.000-08:00</published><updated>2007-11-15T09:39:46.088-08:00</updated><title type='text'>novembro</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O ano termina e ameaça cobrar a sua conta. Escrevi pouco, mas ainda assim foi mais do que no ano passado, quando não escrevi nada – 2006, o início do meu período mais estóico. Ainda hoje vivo dias de abnegação, mas começo a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;fraquejar&lt;/span&gt;. Acredito que essa estadia em &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;montevidéu&lt;/span&gt; é o maior sinal dessa exaustão. No entanto, o pouco tempo que passo aqui é aflitivo pois não permite mais do que anotações esparsas, desconexas. Lembro-me de um sujeito que dizia que meu nome era &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;Joe&lt;/span&gt;. Ele simpatizava comigo e essa empatia pode ter me poupado de conhecer a sua natureza mais violenta, mas ela existia. Por meses, acompanhei a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;trajetória&lt;/span&gt; desse sujeito pela cidade: até mim chegaram relatos tenebrosos, em duas ou três noites lhe paguei cerveja e aguardente, conheci a garota de rosto destruído que ele explorava e também o vi acompanhado de raparigas bonitas. Esta amizade da qual me envergonho merece um conto, uma reflexão mais apurada, mas agora não há tempo para isso. E há &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;Nágila&lt;/span&gt;, aquela miúda de dente lascado que estudou comigo quando eu tinha &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;dezessete&lt;/span&gt; anos. Ela me parecia ser uma das mais cândidas da classe. Talvez por isso tenha ficado em meu sangue, ou pode ser pelo fato de que, numa conversa com Cartago, elegemos o seu corpo nu (do qual tínhamos apenas uma &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;idéia&lt;/span&gt; sonhadora-imprecisa-&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;trêmula&lt;/span&gt;) como o mais bonito de todos. Após ingressar na faculdade, nunca mais a vi, mas há meses sonhei com ela – e é um sonho que não me sai da cabeça. Eu estou na capital e caminho pelos corredores de um prédio antigo, as paredes cobertas de mofo esverdeado. Alguém me acompanha, mas é irrelevante saber quem é, também eu desconheço. Abro uma porta e estou diante da antiga colega de classe: &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;Nágila&lt;/span&gt; aos vinte e oito anos de idade, mais alta, o corpo severo e implacável. Agora ela é uma uma prostituta cujo trabalho é surrar e humilhar homens. Também sobre isso, sobre esse impossível e onírico reencontro com &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;Nágila&lt;/span&gt;, gostaria de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;refletir&lt;/span&gt; . E há mais. Se vasculho a memória encontro a história do estrangeiro que chega a um lugar onde nunca esteve em busca da menina que, por alguns meses, trabalhou em sua casa como &lt;em&gt;&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;au&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;pair&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;. Ele vem após a morte do filho e o reencontro com a miúda (e a bizarra história de amor que decorre desse encontro) é outra &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;idéia&lt;/span&gt; que preciso trabalhar com  calma. Aliás, não é apenas o amor e o sexo em suas manifestações mais sórdidas-&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;incomuns&lt;/span&gt; que ocupam os meus pensamentos. Há o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;projeto&lt;/span&gt; de uma história que, é quase certo, exigirá mais páginas do que um conto: a quase documental narração de um começo de namoro, uma novela que acalento há anos e cuja epígrafe (e tom) descobri no filme que vi dias atrás – "Amor À Tarde", de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;Eric&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;Rohmer&lt;/span&gt;. No filme conhecemos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;Frederic&lt;/span&gt;, um homem bem casado que, nas horas de folga, vagueia por Paris enquanto tem, diante de si, um desfile das mais lindas garotas. Ele quer todas, mas não se lamenta (pelo contrário, até agradece) por saber que nunca mais verá cada uma dessas meninas que cruzam o seu caminho, e nem sequer fica intimidado quando vê uma delas nos braços de um namorado: ele sabe o destino que aguarda o amor, sabe como as relações &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_19"&gt;afetivas&lt;/span&gt; envelhecem e se estabilizam, e em dado momento devaneia (a tal epígrafe): &lt;em&gt;sonho com um mundo feito apenas de primeiros amores e amores eternos&lt;/em&gt; – e é sobre isso que gostaria de escrever, sobre essa dilacerante luta entre o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_20"&gt;efêmero&lt;/span&gt; e o que permanece, a luta contra o corpo, contra a fossilização do amor. A todas essas histórias pretendo retornar depois do dia 25 de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_21"&gt;novembro&lt;/span&gt;, que é a data da última prova, e no ano que vem espero estar liberto, pois, como disse, alcancei o limite do estoicismo. No entanto, enquanto essa liberdade mentirosa não vem sigo com as anotações esparsas, leituras de livros curtos (para não me comprometer por semanas e atrapalhar os estudos), canções de amor dos anos 50 ou 60, embora às vezes eu sinta esse doloroso anseio pelo sublime.  Aconteceu hoje quando, cansado das domésticas canções de amor, ouvi Bach após meses, anos. Foi triste – e belo – porque tive pensamentos e almejei alturas &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_22"&gt;inalcançáveis&lt;/span&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-1758724744260579255?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/1758724744260579255/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=1758724744260579255' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/1758724744260579255'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/1758724744260579255'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/11/novembro.html' title='novembro'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-7830960043117370370</id><published>2007-11-05T17:28:00.000-08:00</published><updated>2007-11-05T17:49:37.118-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Martina Hingis'/><title type='text'>educação cinematográfica</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Não sei se as musas existem. Eu, pelo menos, nunca tive uma. Há uma garota de rosto e corpo bonitos. Diante desta rapariga é possível pintar &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;aquarelas&lt;/span&gt;, compor canções, odes, elegias, sonatas, romances; mas a verdade é que não sei o que isso significa. Sei que existe a beleza, e mais: sei que existe uma &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;idéia&lt;/span&gt; – que também é um anseio – do que é a beleza. Quando um cérebro ou espírito criativo (ou que assim se julga) se vê perante tal &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;espetáculo&lt;/span&gt;, é natural o sobressalto, o espanto, a ânsia de capturar e depois expulsar para fora de si tudo o que foi suscitado por tamanho esplendor. Mas essa beleza pode ser tanto encontrada no rosto de uma menina como também numa cadeira ou vaso sanitário. Basta ter o &lt;em&gt;sopro&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a mim, nunca tive paciência para contemplar cadeiras e vasos sanitários. Tenho os meus gatos (muito &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;charmosos&lt;/span&gt;), reconheço que &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;filhotinhos&lt;/span&gt; de cachorro são um dos poucos acertos do divino, adoro algumas esquinas da cidade velha e – vá lá – gosto de árvores frondosas, tardes de chuva, poentes lentos macios incendiados. Mas nada disso me impediu de ter um cérebro ou espírito dos mais sanguíneos. A maior fonte de beleza ainda são as garotas; sejam as meninas da porta vizinha, sejam as ungidas por poeira de arco-íris, habitantes de um &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;olimpo&lt;/span&gt; para o qual não nasci, e que, por esse motivo mesquinho, interessam-me menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É óbvio que há &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;exceções&lt;/span&gt;. Um exemplo é Eva &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;Green&lt;/span&gt;. Ao ver &lt;em&gt;Os Sonhadores&lt;/em&gt; passei noites &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;insones&lt;/span&gt;, quase sonâmbulo. Os cabelos castanhos; a pele insuportavelmente tangível e, no entanto, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;inalcançável&lt;/span&gt;; a placidez e a inocência (tão &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;evanescente&lt;/span&gt;) do rosto; a boca vermelha, que às vezes se abre num &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;esgar&lt;/span&gt; que é uma mistura de escárnio e lascívia e ternura – tudo isso me assombrou por um bom tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Doutora &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;Cameron&lt;/span&gt;, da série &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;&lt;em&gt;House&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;, foi outra que esteve perto de minhas entranhas, e não tanto por ser bonita, mas por sua mórbida e dolorosa indulgência em relação aos tipos mais desajustados (pois o meu gosto para mulheres, embora resvale o óbvio, ostenta matizes de morbidez e perversão). Marie &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;Laforet&lt;/span&gt;, em &lt;em&gt;O Sol Por Testemunha&lt;/em&gt; (e apenas em &lt;em&gt;O Sol Por&lt;/em&gt; &lt;em&gt;Testemunha&lt;/em&gt;) fluiu em meu sangue por um par de noites, façanha também conseguida por Catherine &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;Spaak&lt;/span&gt; em &lt;em&gt;Aquele Que Sabe Viver&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, a primeira garota olímpica a chamar a minha atenção foi &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;Martina&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;Hingis&lt;/span&gt;. Corria &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;janeiro&lt;/span&gt; de 1999 e eu tentava repousar após dois anos de cursos pré-vestibulares. Na primeira quinzena do mês, fui ao mar, mas choveu todos os dias e quase não desfrutei da viagem. No final do dia, quando a chuva parava (e o ar ficava impregnado de cheiros confusos: tábuas podres, quase mofadas; a doçura da terra e das árvores encharcadas; a maresia salgada, fina, vagamente nostálgica, pois eu não descia ao mar há mais de cinco anos), eu saía com o pai para jogar &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_19"&gt;sinuca&lt;/span&gt; num bar quase em ruínas, que ficava em frente ao cemitério da cidade, ou passava numa banca de jornais que apenas vendia livros &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_20"&gt;imprestáveis&lt;/span&gt;. Por conta de tudo isso, já tinha lido o bastante (para as férias) quando, de volta à cidade, resolvi gastar a quinzena final de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_21"&gt;janeiro&lt;/span&gt; da maneira mais &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_22"&gt;ociosa&lt;/span&gt; e solitária possível. No segundo ou terceiro dia de inércia, descobri, num canal da &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_23"&gt;tevê&lt;/span&gt; paga, o Aberto da Austrália de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_24"&gt;Tênis&lt;/span&gt;. Logo em seguida descobri &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_25"&gt;Hingis&lt;/span&gt;. Mais jovem do que eu. Um corpo delicado e pequeno (quase impúbere) para uma tenista; e os olhos verdes; e a pele muito branca e o olhar suplicante na &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_26"&gt;direção&lt;/span&gt; da mãe (então a sua treinadora) após cada ponto perdido. Ela já era a número um do mundo. Para assistir à final, recusei um convite para sair, e depois, ao vê-la desfilando com o troféu – com um vestido vermelho incandescente, o rosto também afogueado, o fulgor dos olhos verdes, a pele rosada docemente marcada pelo sol nos ombros e no pescoço – apaixonei-me. Como se ela fosse uma menina da vizinhança, ou como se eu tivesse reais condições de ascender aos cumes da glória e da fama apenas para tê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguiu o ano. Fui estudar cinema. Naquela época e naquele lugar de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_27"&gt;grunges&lt;/span&gt; tardios – quando todos os &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_28"&gt;rapazolas&lt;/span&gt; sonhavam em &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_29"&gt;foder&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_30"&gt;Kim&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_31"&gt;Deal&lt;/span&gt; – eu pensava, secretamente, na bela e eterna &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_32"&gt;Martina&lt;/span&gt;. Passei a acompanhar sua carreira. Vi, com desespero, a trágica final em &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_33"&gt;Rolland&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_34"&gt;Garros&lt;/span&gt;, quando perdeu (um jogo ganho) de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_35"&gt;Steffi&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_36"&gt;Graf&lt;/span&gt;, brigou com os juízes e, humilhada, saiu vaiada pelo público. Então veio a derrocada, a escassez de títulos, a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_37"&gt;ascenção&lt;/span&gt; das irmãs Williams, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_38"&gt;Lindsay&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_39"&gt;Davenport&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_40"&gt;Jennifer&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_41"&gt;Capriati&lt;/span&gt; e outras jogadores nada singelas. Após contusões e brigas com a mãe, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_42"&gt;Hingis&lt;/span&gt; interrompeu a carreira. Surgiram rumores de casos amorosos, um mais lamentável que o outro, e depois, quando as garotas bonitas voltaram a dominar o circuito, eu já tinha o coração morto para as beldades do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_43"&gt;olimpo&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi com esse &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_44"&gt;ceticismo&lt;/span&gt; que vi o seu retorno às quadras no começo de 2006. Acompanhei as primeiras partidas após o regresso com a dúbia sensação de que aquela era e não era a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_45"&gt;Martina&lt;/span&gt; de outrora. Os olhos cintilavam como antes; o rosto ainda permanecia afogueado; e descobri no corpo, eu que me acostumara à singeleza de anos atrás, a glória ou pelo menos a insinuação de uma carnalidade perto de explodir. As vitórias não vieram, mas a verdade é que dela já não esperava qualquer triunfo, apenas um retorno digno e calmo: sem conquistas e também sem humilhações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora, enquanto relembro, não sei se um regresso sem humilhações garante um fim digno e calmo. Pode ser que um vencedor, pelo simples fato de deixar de ganhar, torne-se um perdedor. Nesse caso, a angústia, o desgosto e a raiva podem ser ainda maiores. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_46"&gt;Hingis&lt;/span&gt; retornara e, com resultados apenas razoáveis, longe de realizar façanhas, conseguiu ficar entre as 20 melhores. No entanto, após cada eliminação na primeira rodada – ou derrota para jogadora nunca antes vista, ou desempenho tido como excelente por ter alcançando apenas as quartas-de-final – a minha memória cinematográfica foi aproximando &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_47"&gt;Martina&lt;/span&gt; de outro &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_48"&gt;olimpo&lt;/span&gt;, este em ruínas e habitado por perdedores (alguns &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_49"&gt;charmosos&lt;/span&gt;, outros &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_50"&gt;crônicos&lt;/span&gt;), prodígios nunca consumados e deuses caídos: figuras exploradas à exaustão pelo cinema norte-americano dos anos 40 e 50. Até pensei em &lt;em&gt;cowboys&lt;/em&gt; que, após o esplendor na condição de assassinos ou ladrões de trens, definham em algum rancho nos ermos de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_51"&gt;Utah&lt;/span&gt; ou &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_52"&gt;Missouri&lt;/span&gt;, em paz e à sombra da lenda criada. Melhor assim, pensava eu, do que a culpa – e depois o brutal retorno à violência – de William &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_53"&gt;Munny&lt;/span&gt;; ou o périplo de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_54"&gt;Ethan&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_55"&gt;Edwards&lt;/span&gt; pelas &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_56"&gt;imensidões&lt;/span&gt; do &lt;em&gt;&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_57"&gt;Monument&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_58"&gt;Valley&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;, ele que, após a derrota do sul, recusa-se a voltar para casa e perde décadas buscando a sobrinha capturada pelos índios. Um homem que, após assassinar cada um destes índios, atira nos olhos dos cadáveres para impedir que a alma saia e suba.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acontece que, conforme aprendi nestes mesmos filmes, estar distante (o tal rancho nos confins de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_59"&gt;Utah&lt;/span&gt; ou &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_60"&gt;Missouri&lt;/span&gt;) não impede um último confronto com a existência que o perdedor (ou prodígio falso ou &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_61"&gt;deus&lt;/span&gt; caído) tenta abandonar ou até manter. Pode-se dizer que esse &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_62"&gt;olimpo&lt;/span&gt; subterrâneo é apenas temporário, daí a sua natureza &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_63"&gt;purgatorial&lt;/span&gt;; apenas um lugar para se estar antes da morte, esquecimento, aceitação da derrota. E, lendo os jornais no decorrer da última semana, deparei-me com a notícia da aposentadoria de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_64"&gt;Martina&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_65"&gt;Hingis&lt;/span&gt;, anunciada em razão de um exame de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_66"&gt;&lt;em&gt;doping&lt;/em&gt;&lt;/span&gt; – realizado durante o último torneio de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_67"&gt;Wimbledon&lt;/span&gt; – ter revelado traços de cocaína. Li também que ela alega inocência e é possível que uma contra-prova contrarie o primeiro resultado. Ainda assim, não consigo imaginar desfecho mais melancólico para o seu precoce brilhantismo, e por conta disso também eu, no dia em que li a notícia, fiquei triste e pensativo. Sem saber o que virá agora, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_68"&gt;abanonei&lt;/span&gt; a comparação com os &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_69"&gt;comboys&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_70"&gt;desditosos&lt;/span&gt; e me fixei em outro filme sobre o fracasso: A Marca da Maldade (&lt;em&gt;A &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_71"&gt;Touch&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; &lt;em&gt;&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_72"&gt;of&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_73"&gt;Evil&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;). Lembrei-me da frenética e corrupta cidade na fronteira com o México; da sensação de calor reverberando nas sombras &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_74"&gt;noturnas&lt;/span&gt;; dos rostos suados; da revelação de que o personagem de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_75"&gt;Orson&lt;/span&gt; Welles (o mais poderoso policial da cidade) fizera a sua carreira adulterando e manipulando provas; e depois relembrei a sua queda, desespero e por fim a derrota final no outro lado da fronteira – uma cidade &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_76"&gt;fantasmagórica&lt;/span&gt;, vazia, varrida por fortes ventos que traziam em si um cheiro do mar que nunca era visto, e ao longe (mas cada vez mais próximo) o som de uma &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_77"&gt;pianola&lt;/span&gt; que tangia sem cessar uma áspera melodia, e o reencontro com &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_78"&gt;Dietrich&lt;/span&gt;, a melancolia da banal conversa que vem a seguir (banalidade traída apenas quando a cartomante, com o rosto implacável, mira o homem gordo que tem diante de si e diz algo como: eu disse que você não deveria comer tantos doces), e depois a morte e corpo tombando sobre o mar que enfim é mostrado, tudo aos sons da &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_79"&gt;pianola&lt;/span&gt;. Foi nesse cenário que enquadrei &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_80"&gt;Hingis&lt;/span&gt;, ou melhor, foi esse cenário o pano de fundo dos meus pensamentos: eu melancólico, também um pouco derrotado, e a sensação de coração morto para o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_81"&gt;olimpo&lt;/span&gt; e as suas &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_82"&gt;quases&lt;/span&gt; musas. &lt;em&gt;No mais,&lt;/em&gt; &lt;em&gt;canção, no mais&amp;shy;&lt;/em&gt; – assim Camões encerrava, sabiamente, cantos de sua velhice.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-7830960043117370370?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/7830960043117370370/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=7830960043117370370' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/7830960043117370370'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/7830960043117370370'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/11/educao-cinematogrfica.html' title='educação cinematográfica'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-4976206949637395275</id><published>2007-10-31T16:44:00.000-07:00</published><updated>2007-11-01T06:30:35.373-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='diário'/><title type='text'>falso diário de viagem</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;1. O mais longe que estive foi ao oeste, e por poucas horas. Primeiro visitei uma igreja devastada por ventanias de terra. Depois fui conhecer o comércio local. Uma caminhada por ruas &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;lamacentas&lt;/span&gt; e apinhadas de bancas que vendiam &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;artesanatos&lt;/span&gt;, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;manufaturados&lt;/span&gt; ou produtos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;eletrônicos&lt;/span&gt; falsificados. No entanto, o homem que assumira a função de guia nos alertou que era perda de tempo negociar com os camponeses, e ordenou que o condutor do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;ônibus&lt;/span&gt; nos levasse a um &lt;em&gt;&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;mall&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; erguido apenas para abastecer os viajantes. Essa viagem durou pouco mais de duas horas. Às margens da estrada, observei campos cobertos por uma vegetação densa e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;anônima&lt;/span&gt; – apenas árvores e bananeiras aqui e ali. Então nos deparamos com uma construção erguida no meio desse princípio de floresta: um prédio enorme, pesado, quadrado, também sujo por sucessivas ventanias de terra, e, como descobrimos depois, abandonado. O estacionamento ao redor, que poderia abrigar centenas de veículos, não apresentava nem sequer um carro. Nos limites do terreno, um posto policial invadido pelo mato. A solução foi cruzar a fronteira de volta, mas a verdade é que em nenhum momento eu me descobri um estrangeiro. Talvez pelo fato de terem sido em português as poucas palavras trocadas com os nativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Se a condição do estrangeiro é o encontro com uma língua que não é a &lt;em&gt;materna&lt;/em&gt;, então me descobri &lt;em&gt;fora daqui&lt;/em&gt; apenas uma vez, e em meu país. Não me lembro qual estado eu cruzava. A viagem iniciara-se logo cedo e já atravessava a tarde quando o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;ônibus&lt;/span&gt; parou num desses restaurantes à beira da estrada. Como naquela manhã em que estive ao oeste, não havia sol; apenas uma &lt;em&gt;claridade escura&lt;/em&gt;, densa e sufocante. O restaurante – uma construção baixa, vidraças sujas de terra – estava cercado por morros altos e áridos, de um &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;marrom&lt;/span&gt; escarlate. Ao entrar, encontrei o estabelecimento imerso na penumbra e na monotonia. Junto a uma das janelas, um grupo de homens comia. Pairava um cheiro de carne crua e velha, como se eu acabasse de entrar num açougue às vésperas da falência, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;idéia&lt;/span&gt; que pode ter sido sugerida pelas paredes de encardidos azulejos brancos. Pedi uma soda. Alguns ocupantes do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;ônibus&lt;/span&gt; decidiram almoçar, outros beberam café ou aguardente. Eu já saía pela porta do restaurante quando o rapaz atrás do balcão perguntou se eu vinha do sul. &lt;em&gt;Ao sul do norte e ao norte do sul&lt;/em&gt;, pensei em responder, mas essa impossibilidade geográfica me soou exagerada, fruto de uma concepção ainda medieval do espaço. Apenas concordei que vinha de &lt;em&gt;um ponto&lt;/em&gt; ao sul, ao que o rapazote emendou &lt;em&gt;percebi pela sua palavras&lt;/em&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Saí do restaurante e, lá fora, observando a paisagem, a princípio fiquei orgulhoso da minha maneira de pronunciar as vogais e as consoantes, mas logo me vi encapsulado dentro de uma estranha nudez, talvez pudor. Espantava-me saber que os sons que saíam da minha boca fossem uma extensão física do meu corpo e da minha origem – algo tão evidente, tão &lt;em&gt;&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;irrevolgamente&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; meu como uma cicatriz ou &lt;span class="blsp-spelling-corrected" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;marca&lt;/span&gt; de nascença. Até me lembrei de um grupo de espanhóis com quem, dias atrás, dividira uma embarcação. Não conversamos: eles riram entre os deles, eu ri entre os meus, mas em &lt;span class="blsp-spelling-corrected" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;nenhum&lt;/span&gt; momento tirei os olhos da espanhola mais jovem; do seu corpo tão igual ao das miúdas que estudavam comigo mas também distinto de qualquer corpo encontrado ou tido por mim. &lt;em&gt;Um corpo diferente porque pensa em outro idioma, porque &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;batizado&lt;/span&gt; por outra língua. E se falo assim, a minha carne é assim, o meu sangue é assim. E é como se fosse diferente o sangue e a carne das pessoas que falam diferente; pois os seus corpos parecem ter sido curtidos sob uma luz diversa, não uma uma luz mais bela, mais plena, mais forte, apenas uma luz diversa e distante e (para mim) impossível; e muitas vezes percebo esse impulso animal de querer misturar o meu sangue a um outro apenas porque não é o meu, embora eu também perceba a possibilidade de odiar um homem apenas porque ele nasceu sob outra luz. Não há unidade, não há nem sequer um eixo &lt;/em&gt;– podia ter pensado enquanto olhava na &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;direção&lt;/span&gt; dos montes encarnados, os olhos feridos pela escura claridade.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-4976206949637395275?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/4976206949637395275/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=4976206949637395275' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/4976206949637395275'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/4976206949637395275'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/10/falso-dirio-de-viagem.html' title='falso diário de viagem'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-5954438039079906978</id><published>2007-10-26T07:59:00.000-07:00</published><updated>2007-10-26T08:03:45.540-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>Conto: Prelúdio de Um Ano Bom</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Nos dois anos durante os quais fui estiagiário do fórum, as únicas tardes bonitas foram as de chuva, sobretudo no primeiro ano, quando ainda estava na secretaria. A mesa ocupada por mim era a pior de todas – ficava bem na frente do balcão dos advogados, de modo que eu era obrigado a atender qualquer um que aparecesse, função que eu exercia com timidez. O consolo é que, nas tardes de pouco movimento, bastava girar sobre o eixo da cadeira para me deparar com uma janela que se estendia por quase toda a parede, e esta parede era um mirante para a praça que ficava em frente ao fórum, um lugar simples, com apenas algumas árvores, um chafariz em ruínas, um parque para crianças igualmente desolado, e arbustos floridos com pétalas pequenas das mais diversas cores. Nas tardes de chuva, quando o som calmo e abafado da água deslizava sobre as vidraças – e quando a luz vespertina escoava ao longe, acima das árvores, na distância do céu de nuvens brancas – o  tédio do trabalho parecia remido pela visão daquilo que, às vezes, me parecia ser um descomunal jardim de inverno. E muitas vezes nem era preciso contemplar: bastava ouvir o frêmito da água, bastava respirar o cheiro de terra encharcada que, não raro, conseguia esgueirar-se repartição adentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No segundo ano, durante a época de chuvas, eu já estava no gabinete. Uma sala pequena. Além de mim, contava com apenas dois servidores e, à medida que entardecia, não era raro eu ficar sozinho durante longos minutos. O gabinete dava para as salas dos juízes e também para a sala de audiências. Os juízes nunca apareciam, mas era comum, no final do expediente, escutar uma mulher trabalhando na sala de audiências. Ela vinha da secretaria com uma pilha de processos, sentava-se diante do computador e começava as preparações para o dia seguinte. Era uma mulher bonita, magra, com pouco mais de trinta anos, de cabelos escuros, pele clara, olhos muito negros e fundos, vestida com aquela sobriedade vulgar que imperava entre as senhoras que trabalhavam no prédio – enfim, uma mulher cuja carne exalava um perfume doce e cujo hálito, até o final do dia, traía vestígios do almoço feito às pressas em algum restaurante nas imediações do fórum. Éramos corteses e, eventualmente, até simpáticos um com o outro, mas não posso dizer que a sua presença, na sala ao lado, suavizava as horas finais do expediente, pelo contrário; em muitas ocasiões era como ter a carne e o sangue e a órbita dos olhos esmagados pela peso de uma avidez demoníaca, quase insuportável. O consolo, tal como já fora nos tempos da secretaria, eram as tardes de chuva; o inegostável frêmito; a umidade que aos poucos desprendia-se das paredes e até alterava a percepção das horas. Então eu caminhava até a janela e observava a paisagem, que não era mais a da praça que, sob as sombras de muitos crepúsculos, me parecera inundada, submersa na água que caía em torrentes: agora contemplava um estacionamento, a imobilidade da sua rotina, e, ao longe, a luz em fuga, de uma opacidade que às vezes quase assumia um brilho dourado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa tarde de sexta, não quis voltar para casa. No caminho até o carro, cruzei a praça. Chovera até minutos atrás e agora, encrespado ao anoitecer, descia um resto de sol. As árvores altas – curvadas sobre a abandono do chafariz e do parque infantil cujos brinquedos recendiam a ferrugem – transmitiam a idéia de um abóbada também arruinada, mas dentro da qual havia paz e silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Liguei o carro e tomei a direção do Wall Mart que ficava a poucos minutos do fórum. Passei pela entrada principal e, ao notar a enorme quantidade de veículos no estacionamento, tomei um desvio  – contornando o parque de diversões que fora erguido nos limites do terreno; descendo um atalho que corria paralelo ao fundos de um hotel chamando &lt;em&gt;Sleep In&lt;/em&gt;; passando ao largo de um terreno baldio que se estendia até a rodovia que levava para a capital (era o começo da noite e eu podia ver, na estrada, as luzes vermelhas nas traseiras dos veículos que iam embora e, no meio do terreno baldio, um quadrado de luzes amarelas assinalava um heliporto que talvez nunca tenha sido usado); por fim chegando a uma parte pouco conhecida do estacionamento, com muitas vagas vazias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A doçura de antes dissipara-se, e a hipocondria que a provocara também estava fraca, embora nada fosse capaz de aniquilá-la por completo e, pior, quase tudo a instigava, quase tudo a alimentava. Os ventos finos e cortantes, por exemplo, tinham a função de trazer à tona a exaustão física, um mal estar na carne do rosto. Do cansaço surgia a idéia de abandono irredimível e inesgotável, um quase anseio de morrer ou de, pelo menos, não pertencer a uma realidade física; não ser um corpo que necessita de cuidados e que levanta apetites o tempo todo; um corpo que morre porque tem que morrer mas que, antes, precisa ser mantido saudável, limpo, fértil, puro, desejável, belo; um corpo que, não raras vezes, constitui um fardo pesado demais. Não mais do que isso. Um fardo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha estacionado o carro na parte mais baixa do conglomerado de lojas, em frente a um lugar que vendia produtos para animais e cuja fachada exibia, num néon berrante (e esta luz refletia-se nas poças que tinham se formado durante as chuvas da tarde e que ainda agora tremeluziam, devido à garoa que voltara a cair), a imagem de um cão risonho.  Enquanto caminhava até o &lt;em&gt;mall&lt;/em&gt;, às vezes olhava para a rodovia e mais além, para os campos que mesclavam-se às trevas noturnas. Esta solidão tão mentirosa – pois era preciso um grande esforço para ignorar os rugidos que vinham do monumental dinossauro do parque de diversões, e o rumor dos carros, e aquele murmúrio que era a soma das centenas de vozes e corpos humanos que, como uma torrente, moviam-se nos corredores acima de mim – davam um ar mais solene, se é que isso pode ser dito a respeito de qualquer emoção humana, à tristeza e ao cansaço. Às vezes era possível distinguir; ou melhor, às vezes era possível imaginar, no ar entrecortado de ruídos, os acordes de alguma canção bonita, ou a voz e o riso de uma garota de quem um dia gostamos muito, ou até versos que, embora nunca declamados, ganham sonoridade e corpo na memória. Às vezes Kávafis, ou Eliot, ou Bandeira, ou Eugênio de Andrade, ou Rexroth.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A idéia de solidão aumentou enquanto subia as escadas rolantes e olhava, através de uma opaca vidraça, dezenas de bicicletas e esteiras ergométricas, todas vazias, dispostas no interior de uma academia ainda inacabada. Quando alcancei os corredores, o cansaço desapareceu, e, ao notar raparigas bonitas aqui e ali, voltou a animação. Algumas caminhavam solitárias; traziam sacolas de lojas caras e paravam diante das vitrines, com uma expressão ora vaga, ora introspectiva, arrumavam o cabelo que lhes caía pelo rosto, e então seguiam com um passo vagaroso, quase indolente, quase sonâmbulo. Sabia que, aos olhos dessas meninas, eu era não passava de um arremedo de bárbaro – trajava calça e camisa que, apesar de boas para o trabalho no fórum, nem de longe eram sinais de prosperidade. E em meu rosto devia haver (talvez ainda haja) qualquer expressão de desvario, uma excitação nervosa ou uma timidez que resultavam do constante sentimento de inadequação. Portanto sempre achei sedutora essa autonomia, essa solidão quase aristocrática de algumas mulheres diante das vitrines das lojas mais elegantes. Eu as via com seus olhos glaucos, e cabelos loiros ou de um castanho que sob o sol fica vermelho ou cor de mel, e pele nívea, e nariz fino. Todas serão erva, dizia o meu instinto mais terrível, mas vinha outro instinto, este mais calhorda, e falava da necessidade de se deitar sobre a erva mais bonita, a relva dos píncaros, onde a luz parece imorredoura e onde adejam borboletas azuis. E se depois quiserem arrancar a cabeça de Julien Sorel, tanto melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Planejara ir à livraria e depois assistir a algum filme. Na livraria vi o conhecido rosto de uma garota que fora minha colega nos tempos em que pretendi estudar cinema. Eu a chamei e começamos a conversar. Há anos não a via e, além de não saber o que esperar, ainda existia em mim aquela sensação de ter sido um traidor da causa artística e não apenas isso: fora eu o único a abandonar aquela família onde todos almejavam aprender sobre Murnau e Resnais e Wenders; o único a abandonar aquela universidade encravada no interior de um bosque de eucaliptos; o campus da, para mim, sempre melancólica faculdade de cinema – um lugar que, a cada palavra trocada com a antiga colega, ergueu-se da memória: lembrei-me dos crepúsculos, dos dolorosos ocasos que pareciam pertencer a outro continente, sobretudo na hora em que o gelado vento  alcançava a névoa que subia do lago, toldando o céu e as últimas horas do dia. Então era até possível acreditar que, nos alojamentos, vivesse uma linda miúda de nome &lt;em&gt;Dawn&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;Aube&lt;/em&gt;, e, durante as noites de frio intenso, era quase real a sensação de caminhar pelos corredores de um castelo perdido na Floresta Negra e que antes abrigara Rilke e as suas elegias. Mas não há névoa, não há bosque de eucaliptos que cesse a algazarra das cigarras em novembro e dezembro, e quando isso acontecia – quando a luz descia límpida e, mais límpida ainda, deslizava sobre as águas do açude – despertávamos para o nosso país e muitas vezes era como despertar para a própria mortalidade, seja da carne, seja do espírito. O lago rebrilhava e, no entanto, era como mirar uma adiada sepultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela tinha os olhos negros. Os cabelos, também escuros, eram revoltos, crespos como os de uma judia. O corpo, pequeno e esquálido, transmitia uma idéia de doença, de desespero íntimo. Por mais que olhasse, não podia acreditar – nem sequer por um segundo – que a sua pele recendesse a sol; que os seus instintos, libertos, fossem a vitória da carnalidade; como se o corpo há muito tivesse desistido de ser um corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas podia ser que tais impressões fossem resultado das recordações que eu tinha dela. Lembrava-me, por exemplo, de uma noite em que, involuriamente, eu fora espectador de sua tristeza e ruína. Nessa noite, eu tinha ido embora mais cedo da aula para assistir a um importante jogo de futebol. Conseguira carona com Ezequiel, um outro colega de classe, um sujeito que, na universidade, era tão deslocado quanto eu. Justo na hora em que entrávamos no carro ela apareceu, também à procura de uma boléia. E começou a chorar quando o carro estacionou diante do prédio onde vivia. Falava da depressão, de obsessões amorosas, dos medicamentos, de sua completa disfuncionalidade, de não conseguir acordar e comer e estudar e trepar, e então Deus quis salvá-la. Deus começou a falar pela boca de Ezequiel, e – quando ele quer salvar alguém, quando quer que as suas palavras saiam da boca de um dos seus servos – as palavras são excessivas para abrir ou pelo menos anestesiar (pela exaustão) o coração estiolado. O resultado disso é que a conversa durou horas. Deus existe e é misericordioso; Deus ou não existe ou é a implacabilidade da morte e o fracasso de tudo o que é humano; o suicida é o mais orgulhoso dos homens; não há ato que demande mais humildade que pôr fim a própria vida; a fé salva; a crença torna o homem indigno: enfim, estes foram apenas alguns dos antagonismos que pontuaram aquela conversa sem lágrimas. Apenas raiva de um lado, e, do outro, a lógica sagrada e terna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de não ter tomado parte do diálogo, a partir daquela noite nos tornamos íntimos. Eu chegava na segunda e ela perguntava como fora o final de semana; eu falava dos lugares a que tinha ido e às vezes até aludia a alguma rapariga e depois pedia conselhos; ela ria das minhas confusões – uma risada bonita, que causava assombro na medida em que parecia alheia àquele esquálido e vulnerável e desesperado amontoado de carne e ossos – e o que dizia não era diferente do que outras meninas me diriam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, não demorou e logo o riso dela perdeu aquela aura sublime que o havia consagrado. Agora este mesmo riso (ainda sonoro, ainda bonito) surgia como um esforço, um gesto de mendicância e, após poucas semanas, tudo nela revelou-se exatamente isso: mendicância. Lembro-me de uma noite em que, ao chegar a uma festa, ela me abraçou. Perceber os contornos de seu corpo contra o meu foi agradável: tinha os seios bem salientes sob o tecido da blusa e a rigidez da carne guardava vestígios de uma idade pubescente. No entanto, mais uma vez fora uma mentirosa primeira impressão: notei – à medida que o abraço demorava-se a ponto de se tornar sufocante – que esta rigidez não era nada mais do que um sinal de crispação: o ódio da carne pela própria carne e o asco do corpo pelo próprio corpo. E tudo nela, todas as suas palpitações e tremores pareciam obedecer a um ritmo secreto, como se ela tivesse dois corações. O primeiro igual a todos, impulsionando o sangue por todo o organismo – mas além desse coração parecia haver um outro, pulsando nas sombras do primeiro, e que dava fluxo a uma ânsia cada vez mais alucinada de acabar com tudo. Era este coração secreto que nutria o seu corpo e, se isso acontecia, também era natural concluir que ela fosse dúplice em todos os aspectos. Percebi isso numa tarde em que dormia ao meu lado. Apesar do semblante pacífico e da vulnerabilidade e desmaiada lascívia daquela corpo aberto para mim, havia algo mais, como se uma segunda epiderme recobrisse a primeira, e a mesma impressão tive ao mirar os cabelos, o rosto, a boca, os ombros, os contornos dos seios: tudo parecia germinar a tragédia, toda a carne parecia crispada em virtude de uma condenação prematura e inevitável. Em outras palavras: ela &lt;em&gt;era&lt;/em&gt; um corpo, e este corpo cobiçava como qualquer outro, a diferença é que tinha a consciência do fracasso do desejo e de qualquer outro anseio humano. Então como compreender a mendicância? Como compreender que esse corpo continuasse se oferecendo? E como possuir e fecundar e gozar de uma carne que não era mais do que a desolada e fantasmagórica voz da terra calcinada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mês seguinte abandonei a universidade, uma decisão tomada no curso de uma madrugada de insônia, enquanto ela dormia ao meu lado. Não é raro a mendicância ter, como paga, a covardia. Foi um modo de conter os meus instintos mais perversos; de escapar das pulsões sádicas que me inspiravam os mergulhos naquela pele dolorosa e viciante; naquele corpo que se abria, que se entregava até o aniquilamento, e que encontrava paz, calma e até disciplina na agonia física; um corpo que, febril, era raiva e que, ao esfriar, era a antecipação da morte, a esterilidade de tudo, a impotência; e madrugada após madrugada a sensação da carne (feminina, sonâmbula) dormindo ao meu lado: a respiração pesada, o hálito quente, doce e mórbido que dela se desprendia; e em mim também a raiva, crescente, a raiva como naquele poema de Dylan Thomas, &lt;em&gt;a raiva contra a luz que se quebra&lt;/em&gt;, a raiva por possuir um corpo que, desperto, tudo o que fazia era encolher-se de medo. Não consigo comer, não consigo estudar, não consigo trepar. Era o que ela gostava de dizer, e após um tempo percebi que tinha razão: não trepávamos, não havia entre nós qualquer foda, qualquer coisa que remetesse ao amor ou à sua tentativa, ainda que falhada. O amor não podia ser tamanha carnificina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois disso, Aurora, em duas ou três ocasiões, veio até a minha cidade – a fala desesperada, o corpo mais seco do que nunca, os olhos cadavéricos, o rosto sulcado, os cabelos de judia, mas bastava abraçá-la, bastava ter o corpo dela contra o meu para se assombrar com as possibilidades oferecidas e, logo em seguida, negadas. Tudo era triste, inútil, estéril. Até que um dia ela deixou de vir. Agora, segundo os relatos que me chegavam, o centro de suas obsessões era Ezequiel. Uma relação também raivosa, miserável, falhada, e que veio a deixar um filho abortado. Ao saber disso, o que primeiro me espantou foi existir fertilidade em sua carne. Mas poderia ter sido um milagre. Talvez Deus – que antes fora a voz de Ezequiel – tivesse chegado ao cúmulo de fecundar aquele corpo que expulsava de si qualquer início de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora ela vai dar cabo de tudo, pensei comigo mesmo após estas primeiras ponderações, sem saber até que ponto a criança não nascida aumentara a sua tristeza. Ezequiel também tinha a abadonado e, ciente disso, até pensei em voltar para o bosque dos eucaliptos. Considerava – como um casmurro às avessas – que a criança pudesse ser minha e até encontrava evidências que confirmassem tais suspeitas.  No entanto, ainda um arremedo de casmurro, toquei os estudos adiante; aprendi as leis numa cidade que nada tinha de Coimbra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso não quer dizer que, nos anos seguintes, eu não tenha retornado. A primeira dessas visitas ocorreu durante um mês de dezembro. Recordo que, naquelas semanas, chovia muito todos os dias. Foi a primeira vez em que, durante a viagem, peguei fortes temporais durante o trajeto. Acostumara-me a olhar pela janela do ônibus e contemplar, até onde a vista alcançava, as plantações de café, cana de açucar, e também os sítios nunca cultivados. Mas naquela viagem o cenário estava mudado. O céu parecia baixo e a vastidão dos caminhos perdia-se numa monotonia manchada de cinza. Quando cheguei à universidade, contudo, veio um resto de sol. Feixes de luz clara desciam por entre os eucaliptos; a luz mais límpida e fulgurante que já havia encontrado; e a mais crepuscular também; morrendo depressa pois o vozerio das cigarras era onipresente e porque o calor começava a se tornar insalubre, com um odor de água morta que subia do lago. Os velhos colegas foram amáveis. Quando a vi e a chamei, houve novo abraço e por um instante foi bom – ela ainda tinha os seios salientes sob o tecido da blusa, a rigidez da carne jovem. Então percebi que a mendicância e a hipocondria daquele corpo haviam morrido para mim e talvez para todos. Cheguei a ter a impressão de que ela e o seu corpo tinham existido apenas para isso, apenas para ter algo &lt;em&gt;não nascido&lt;/em&gt; dentro de si e o que vinha agora era a queda solitária. No momento em que o abraço terminou, surgiu em mim algo que era uma mistura de raiva e ternura. Algo que poderia ser a voz da carne; o seu apelo ancestral; o falhado instinto da carne em existir em outra carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Agora ela me perguntava que livro eu tinha nas mãos. Respondi que não era nada especial e perguntei o que fazia na cidade. Venho para cá duas vezes por semana, respondeu para acrescentar logo em seguida: os terapeutas daqui são melhores – cobram mais caro. Sem dizer nada, mirei o seu rosto, e notei que já não era apenas a depressão que o sulcava, escavando cada vez mais fundo: a erosão dos anos trazia marcas e sombras, e o curioso é que aquele começo de velhice chegava a atenuar o desespero com um ar de distinção, de sobriedade. Quando vierem os cabelos brancos e a falência total da carne, aí ela será uma velha triste como tantas outras – pensei – mas isso pode demorar. Ela me disse que ainda estudava em eucaliptos, cursava o último ano, e que eu acertara ao fugir daquilo tudo. Quis consolá-la com um pouco de melancolia. Respondi que na maioria das vezes sentia-me solitário, e que naquela noite nem pretendia comprar um livro: apenas matava o tempo antes de ir ao cinema, e seria bom ter a companhia dela. Ela aceitou, mas a verdade é que, durante a exibição do filme, tive os olhos fixos na tela o tempo todo. Não quis beijá-la porque o seu corpo já não me pedia nada. No entanto, inúmeras vezes durante a projeção, lembrei-me das madrugadas em que dormimos lado a lado. Lembrei-me do peso da sua sua respiração; do halo feminino, ora insuportavelmente triste, ora excessivamente lascivo, que se irradiava de sua pele; da carne que se crispava ao menor toque. Ao fim da sessão, abraçamo-nos, e percebi os contornos dos seios, mas a carne já não estava tesa, rígida, e uma última vez o casmurro às avessas que existia em mim revirou velhas suspeitas. Chovia fino enquanto caminhei de volta ao carro. Poças tinham se formado aqui e ali, refletindo o néon que descia das fachadas das lojas, enquanto ao longe a rodovia vazia e escura confundia-se com as trevas do terreno baldio. Segundo relatos, ela afogou-se no açude de eucaliptos algumas semanas depois, no final de fevereiro. Ouvi a notícia com pesar e até espanto, mas isso não impediu aquele ano de ser um dos mais gloriosos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-5954438039079906978?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/5954438039079906978/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=5954438039079906978' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/5954438039079906978'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/5954438039079906978'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/10/conto-preldio-de-um-ano-bom.html' title='Conto: Prelúdio de Um Ano Bom'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-593101884942882597</id><published>2007-10-14T12:36:00.000-07:00</published><updated>2007-10-14T12:44:06.554-07:00</updated><title type='text'>possível fragmento (em dezembro)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O ano anterior fora horrível, embora quase salvo pelo mês de dezembro, de muitas caminhadas noturnas e visitas a casas de fliperamas e salões de bilhar. No primeiro desses passeios, saí às ruas apesar da ameaça de chuva – nuvens avermelhadas acima dos telhados e um vento forte e úmido que vergava as palmeiras e erguia um torvelinho de papéis e pétalas de flores. Desde os tempos do Pato, antes de ingressar na faculdade, eu não perambulava pelas ruas da cidade velha durante a noite. E foi bonito ver, nos quarteirões perto do Mercado Municipal, aquelas construções de 1930/40 destruídas pelo abandono e enfeitadas com luzes amarelas, verdes e azuis. Perto da Praça da Catedral o vento era tão forte que as árvores, curvadas, quase tocavam o solo. Continuei caminhando, passei pelas sorveterias e esquinas cheias de gente e logo alcancei aquele trecho mais escuro da Rua Amazonas, antes de ela voltar a se iluminar e desembocar na Praça do Teatro, a mais bonita da cidade durante a época do natal, pois o chafariz fica ligado toda a noite e as copas das árvores são adornadas com gigantescos e fulgurantes frutos de plástico vermelho. Nesse trecho escuro da Rua Amazonas,  havia uma casa de fliperamas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando voltei às ruas, os ventos tinham cessado. Agora, da imobilidade das árvores e do céu, descia um ar gorduroso e sufocante. Cruzei a Praça do Teatro e continuei descendo. Quando alcancei os quarteirões mais baixos da cidade, a pestilência do ar já era insuportável: o que perturbava, quase &lt;em&gt;tangível&lt;/em&gt;, era mais do que a súbita aspereza da atmosfera, mas a consciência de uma carne insone há madrugadas, curtida pelo sol, arrefecida pelos ventos noturnos e depois fustigada por uma inesperada alteração na densidade do ar. Eu caminhava pelo quarteirão onde, há alguns meses, numa tarde de sábado, vira um bêbado estatelar-se no chão. Lembrei-me de como parecera morto, da poça de sangue que começara a se formar ao redor da cabeça, do grupo de homens que correram para ajudá-lo e de como eu fora obrigado a tomar parte daquilo tudo, erguendo-o junto com os outros homens (eu segurava uma das pernas) e levando-o por um corredor estreito e fétido, o qual terminava numa sala escura, onde um grupo de velhos sem camisa e cheirando a bebida se reunira em torno da tevê. A essa altura, o bêbado tinha começado a recobrar a consciência e sacudia, pesada e debilmente, as pernas. No caminho de volta, enquanto ainda caminhava pelo corredor, observei, no chão poeirento, o rasto de sangue, e pensei com horror na possibilidade daquele sangue ter me tocado na pele, nas roupas. Logo depois topei com uma rapariga de cabelos claros, olhos escuros, trajando uma bermuda puída e uma camiseta apertada que permitia ver, na altura do estômago, pedaços de uma carne lívida e flácida. Ela tinha saído de um dos bares do outro lado da rua e, ao me abordar, perguntou se eu tinha um preservativo para lhe vender. Respondi que não. Ela questionou os outros homens que haviam ajudado o bêbado, seguiram-se risadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa quis escrever um poema. Quis que o nojo e o desprezo fossem ternura e depois quis que a ternura fosse o espírito do mundo. Até cheguei a escrever meia dúzia de versos de uma mentirosa indulgência. Poucas semanas foram o bastante para eu deixar de pensar no homem caído, mas a memória da menina perdurou por meses. Ao passar por aqueles sítios, não deixava de olhar para os bares, pastelarias, hotéis antigos transformados em pensões escuras e decrépitas. E, se nem sequer posso dizer que havia desejo e busca, também não posso afirmar a ausência de desejo ou busca. Eu apenas mirava aquelas pessoas e aqueles prédios e pensava em como a vida podia ser tão baixa, em como a carne era capaz de se degradar, e muitas vezes vinha &lt;em&gt;quase &lt;/em&gt;uma ânsia de se misturar – o impulso de estar dentro, de entender, de saber, de ao menos provar aquilo que era tão miserável e fértil e talvez inumano; e às vezes, como naquele primeiro passeio noturno em dezembro, eu me demorava de propósito, rondava os quarteirões, procurava um vestígio de beleza, ao menos um sinal de que o nojo e desprezo pudessem ser ternura e ao menos um indício de que a ternura pudesse ser o espírito do mundo. No entanto, tudo o que eu fazia era andar. Era olhar para as luzes ardentes, para a degradação – tudo o que fazia era nunca desejar, nunca buscar, mas também nunca deixar de desejar ou buscar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-593101884942882597?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/593101884942882597/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=593101884942882597' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/593101884942882597'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/593101884942882597'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/10/possvel-fragmento-em-dezembro.html' title='possível fragmento (em dezembro)'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-1862698697373148679</id><published>2007-10-10T09:29:00.000-07:00</published><updated>2007-10-10T09:33:24.317-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='corpo'/><title type='text'>idílio</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A morte do corpo, e apenas do corpo, é o tema central (talvez o único tema) de “Homem Comum” (“&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;Everyman&lt;/span&gt;”), de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;Philip&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;Roth&lt;/span&gt;. Portanto, nada mais natural que a personagem central não ter um nome, pois a biografia narrada não é a de um homem; é a história de um corpo e a sua degradação, passo a passo, da hérnia operada na infância até os colapsos da velhice. A biografia de um corpo que, como quase todos os outros, é saudável no começo. No entanto ele vai se estragar – agoniza, apodrece e morre porque &lt;em&gt;tem&lt;/em&gt; que agonizar, apodrecer e morrer: não importam as dietas seguidas, os tratamentos feitos ao pé da letra, o diligente cuidado durante anos, décadas. Ao cabo de tudo virá a precariedade dos órgãos que começam a falhar, as doenças, as cirurgias, as pontes de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;safena&lt;/span&gt;, os tubos de respiração artificial, as &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;quimioterapias&lt;/span&gt;, até que é alterada a percepção do tempo e talvez não seja possível morrer em paz. Talvez a única alegria possível e verdadeira seja a de um corpo saudável, e, no fim, a certeza de ter &lt;em&gt;sido&lt;/em&gt; um corpo bom e pleno não é mais do que a amarga e senil evocação de um paraíso distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao comprar o livro, tinha a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;idéia&lt;/span&gt; de, após a leitura, passá-lo ao pai, para que ele enfim conhecesse a prosa de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;Roth&lt;/span&gt;. Mas, a cada página lida, lembrava-me de suas últimas crises de hipertensão (numa delas ele respirava pesado no banco do passageiro, podia deixar de existir a qualquer momento), de umas sombras surgidas ao redor dos olhos, da corcunda cada vez mais proeminente, da tocante melancolia que tenho percebido aflorar durante algumas &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;risadas&lt;/span&gt;. O resultado de tais pensamentos é que, agora, não tenho a menor vontade de lhe passar o livro. Todos morrem e todos sabem que vão morrer, mas &lt;em&gt;saber&lt;/em&gt; da morte é diferente de &lt;em&gt;ser&lt;/em&gt; a morte. Talvez seja de um sadismo violento colocar o livro na cabeceira da sua cama, mas é possível que ele passe incólume pela leitura, é possível que o medo seja apenas meu, um medo que é um resto de infância e também uma das primeiras antecipações da morte: se existe, no passado, a lembrança de um paraíso, talvez a primeira sensação desse paraíso seja a certeza de que são eternos aqueles que amamos, e a segunda – e a mais permanente sensação – é a cega crença na própria imortalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, não é de se estranhar que, durante a leitura, eu tenha revirado a memória para resgatar imagens que me provassem a glória de ainda habitar um corpo bom, e o que me assaltou foi a lembrança de umas dessas noites em que a alegria surge de um cenário de aparente monotonia. Foi durante o primeiro ano do namoro. Naqueles meses, nas noites de quarta, eu a levava para as suas aulas de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;caratê&lt;/span&gt;. Enquanto ela treinava, eu aproveitava para caminhar pela vizinhança. Gostava disso porque era uma parte da cidade que não conhecia bem, mas aos poucos surgiram pontos de referência, como a fachada de um supermercado que, sob a luz branca irradiada pelos holofotes do estacionamento, lembrava-me muito uma tela de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;Hopper&lt;/span&gt;. Nessa noite, todavia, não fui muito longe. Começou a chover muito forte e precisei voltar para o carro e lá esperar durante quase uma hora. Às vezes olhava na &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;direção&lt;/span&gt; da academia e a via, através da vidraça, durante o incompleto movimento de um golpe, mas logo ela entrava num ponto cego e desaparecia. Depois eu olhava para a cidade, para a quietude da rua deserta sob o aguaceiro. Quando ela aparecia novamente, mais uma vez prestava atenção na incompletude de seus movimentos e ficava alegre porque mais tarde iríamos estar juntos. Então mais uma vez ela saía de meu campo de visão e mais uma vez eu voltava a contemplar os telhados castigados pela chuva, a luz amarela e opaca que descia do alto dos postes, e às vezes ligava o rádio e alternava entre uma estação que tocava sucessos antigos e a narração de um jogo de futebol.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-1862698697373148679?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/1862698697373148679/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=1862698697373148679' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/1862698697373148679'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/1862698697373148679'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/10/idlio.html' title='idílio'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-5082627847717173222</id><published>2007-10-08T21:15:00.000-07:00</published><updated>2007-10-09T07:27:45.276-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='mississipi'/><title type='text'>Lá há dias como este</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Em &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;dezembro&lt;/span&gt; há as tempestades e os caminhos ficam cobertos de pétalas amarelas. Em &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;fevereiro&lt;/span&gt; e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;março&lt;/span&gt;, o calor, sem perder a força, começa a agonizar: o ar fica áspero e a luz que declina é crua e antiga, como se não houvesse noite – e nem sequer &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;crepúsculos&lt;/span&gt; – há meses, talvez anos. Há chuvas, e, à medida que &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;abril&lt;/span&gt; se aproxima, os ventos ganham &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;frescor&lt;/span&gt;, retornam os &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;ocasos&lt;/span&gt;, o céu cravejado de estrelas gordas, e as manhãs e tardes, apesar do calor ainda estalar nos terrenos baldios, assumem uma claridade pacífica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas condições climáticas perduram durante o inverno, cujo rigor se resume a algumas poucas madrugadas. Então vem &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;agosto&lt;/span&gt; e o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;estio&lt;/span&gt;, iniciado há poucas semanas, torna-se cruel. Os ventos quentes retornam e trazem o cheiro de cana e terra queimada. Os jornais informam que a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;umidade&lt;/span&gt; do ar está em níveis críticos, nas escolas deixam de praticar &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;atividades&lt;/span&gt; físicas, e suplementos especiais reportam os cuidados que cada um deve tomar. A seca, que nos anos bons dura até &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;setembro&lt;/span&gt;, muitas vezes ultrapassa &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;outubro&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei quando comecei a prestar atenção no clima. Talvez durante a leitura de &lt;em&gt;Grande Sertão: Veredas&lt;/em&gt;, ao perceber quantas vezes o narrador tenta definir o que &lt;em&gt;é &lt;/em&gt;sertão – mais do que um espaço geográfico, um espaço onde existem aquelas vidas e não apenas isso: um lugar onde &lt;em&gt;possa&lt;/em&gt; existir a ficção. Após Guimarães Rosa, vieram as leituras de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;Faulkner&lt;/span&gt;, e o território inventado por ele, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;Yoknapatawpha&lt;/span&gt;, no estado do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;Mississipi&lt;/span&gt;, cenário da maioria dos seus livros. Quentin &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;Compson&lt;/span&gt; disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Lá há dias como este no fim de Agosto, em que o ar fica fino e sôfrego como aqui, com um não sei quê de nostálgico, de triste e familiar. O homem é o somatório de suas experiências climáticas dizia o pai. O homem era o somatório de tudo mais alguma coisa.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio que foi a partir daí que passei a situar o que escrevo numa cidade apenas parecida com a minha, mas uma cidade cujas peculiaridades climáticas eu conheço com &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;exatidão&lt;/span&gt; e orgulho – uma cidade com cheiro de terra, sob uma luz que ainda &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;zune&lt;/span&gt; em meu sangue. Agora vem o árduo e talvez inútil trabalho de povoar esse lugar, de encorpá-lo com memórias e histórias e sombras que não sejam apenas as minhas, embora ainda não tenha o que somar a tais &lt;em&gt;experiências climáticas&lt;/em&gt;. Às vezes, como no mês passado, enquanto ia a uma cidade perto da minha, diviso os campos às margens da rodovia. Não há nuvens e a luz, aliada aos ventos poeirentos, chega a ferir os olhos. Percebo um &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_19"&gt;trator&lt;/span&gt; trilhando um caminho sobre a terra. Por onde passa ergue-se uma névoa de poeira vermelha e áspera, que logo depois se dissipa. Rio para mim mesmo e murmuro, com alguma frustração, &lt;em&gt;&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_20"&gt;mississipi&lt;/span&gt;.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-5082627847717173222?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/5082627847717173222/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=5082627847717173222' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/5082627847717173222'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/5082627847717173222'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/10/l-h-dias-como-este.html' title='Lá há dias como este'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-167328121790367570</id><published>2007-10-07T21:54:00.000-07:00</published><updated>2007-10-08T16:02:24.899-07:00</updated><title type='text'>tarde de sábado - apontamentos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;1. No salão de bilhar da Rua Santiago, nunca entendo o que jogam o sujeito atrás do balcão e o seu habitual oponente. Cada um pega um punhado de cartas e, sem nenhum critério aparente, descartam algumas. Quase não conversam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. A moça que não sei se é filha ou amante do dono do lugar parece mais feia do que há dois meses. Quando eu e Cartago chegamos, ela comia de um prato de alumínio, olhos atentos na &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;tevê&lt;/span&gt; da parede. Não quisemos incomodá-la e escolhemos uma mesa isolada. Após terminar o almoço, ela sumiu por uma das portas que dava para os fundos do bar. Reapareceu minutos depois e pude vê-la melhor. Calçava uma sandália de couro, vestia uma saia &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;puída&lt;/span&gt; que mal chegava aos joelhos e uma &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;incomum&lt;/span&gt; blusa rendada que parecia ter sido tirada de uma boneca. O rosto, de uma lividez ungida pelo suor, cintilava. Não devolveu os nossos olhares e voltou a sentar-se na cadeira antes ocupada. A essa altura, o jogo de cartas tinha terminado e o seu pai ou amante foi até ela e passou a acariciar a sua fronte, os cabelos negros e gordurosos. Cartago falava da esposa. De um programa de computador que, ao analisar as opções da bolsa de valores, escolhe as &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;ações&lt;/span&gt; que devem ser compradas e as que devem ser vendidas. O vento – ou melhor, a aridez do ar está repleta de sol e de terra que sobe das calçadas e desce dos telhados. Lembro a mim mesmo que a avó foi &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;sepultada&lt;/span&gt; numa tarde como essa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Passamos em frente a um curso preparatório para o vestibular. É dia de simulado e a calçada estava tomada por raparigas de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;dezessete&lt;/span&gt; e dezoito anos. Cartago afirmou que, há &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;exatos&lt;/span&gt; dez anos, estávamos em situação idêntica. Em silêncio, evoquei os dias durante os quais ainda podíamos caminhar pela cidade nas tardes de sexta. O último desses passeios foi em maio do ano passado: eu vivia as primeiras semanas do namoro e tinha o corpo exausto e, no entanto, desperto como nunca antes – uma sensação de quase aniquilamento e quase delírio por ainda estar recebendo o início do amor. Soprava um forte vento enquanto, diante da escola onde havíamos estudado, metade oculto nas sombras, contemplávamos a saída dos alunos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. No final da tarde, quando já estávamos de volta ao salão de bilhar, lembrei-me da outra avó, a que ainda não morreu. Não sei o que conduziu o meu pensamento até ela, talvez a visão da fachada de uma clínica &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;geríatrica&lt;/span&gt; no outro lado da rua. Sobre avó morta escrevi inúmeras páginas: uma minuciosa narração do colapso que a matou afogada pelo próprio sangue, a descrição da sala onde ocorreu o velório, o sepultamento, os dias que se seguiram, o sol, a dor. Diante do cadáver da avó morta, eu tive a absurda sensação de estar diante de algo que já tinha deixado de existir.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas a outra avó, a que ainda não morreu, parece representar uma situação oposta. Ela não reconhece ninguém, a memória deixou de existir, a carne fica mais &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;macilenta&lt;/span&gt; a cada dia, basta um vento para abrir feridas nas pernas e nos braços. Em outras palavras: ela&lt;em&gt; é&lt;/em&gt; a ausência – ela &lt;em&gt;existe&lt;/em&gt;, mas é a existência como mancha, borrão cada vez mais pálido, transparência. Quando a colocamos sentada no sofá, é como se não estivesse lá, e tenho a certeza de que, se fosse um cadáver, todos reparariam. É como se um corpo morto representasse a derradeira &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;concretude&lt;/span&gt; não apenas do que deixou de existir, mas também do que existiu – ainda que em cores pálidas, desbotadas, degradantes – durante tanto tempo. Quero acreditar que, quando a avó ainda viva morrer, e quando todos nós estivermos diante de seu cadáver, ela deixará de ser ausência. Ela voltará &lt;em&gt;enquanto coisa viva que não existe mais&lt;/em&gt; e trará o espanto, talvez a dor, talvez a memória, talvez até a literatura e então será possível uma detalhada narração de seus últimos anos e agonia. Poderá alguém vir e dizer o quanto era comovente a demência, o corpo abandonado no sofá e outras imagens poderão ser evocadas. Talvez o canteiro de rosas e ervas cultivados por ela e o cheiro de hortelã nas tardes de calor. A &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;concretude&lt;/span&gt; da morte enquanto &lt;em&gt;&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;madeleine&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-167328121790367570?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/167328121790367570/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=167328121790367570' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/167328121790367570'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/167328121790367570'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/10/tarde-de-sbado-apontamentos.html' title='tarde de sábado - apontamentos'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-1407424286781323379</id><published>2007-10-03T21:13:00.000-07:00</published><updated>2007-10-05T09:13:41.668-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='infância'/><title type='text'>os nomes dos perdedores</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Da infância, lembro-me que, nas noites de quarta ou quinta-feira, uma emissora de menor audiência exibia jogos de futebol. Nas noites geladas ou chuvosas, quanta melancolia existia nisso: nada parecia estar em jogo e as partidas, disputadas em campos enlameados e sob neblina, atraíam pouco público – era como se não existissem troféus, a possibilidade de ganhar, e os grandes jogadores não passavam mais de fantasmas mortos há vinte ou trinta anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lição de casa era feita na mesa de mármore da cozinha, e muitas vezes eu acabava a tempo de ir na rua. Durante o calor, subiam meninos e meninas de outras vizinhanças e era divertido, mas, nas noites geladas de maio e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;abril&lt;/span&gt;, poucos garotos apareciam para brincar. Numa das casas no final do quarteirão, existia uma velha agonizante e era comum ela receber a visita da filha e do neto. O menino chamava-se Lucas e por um tempo fomos amigos (a mãe dele não gostava dos outros garotos do quarteirão e eu era o único que podia brincar no quintal da velha, debaixo da parreira, e durante o frio de outono o chão era coberto por folhas): disputávamos figurinhas de jogadores e conversávamos sobre futebol. Resultado disso é que acabei por decorar os jogos de quase todas as copas do mundo. Durante uma aula de história a professora disse ninguém se lembra dos nomes dos perdedores. Quem sabe, por exemplo, o segundo lugar da copa de 54? Eu levantei a mão e disse Hungria. Houve espanto e a professora, contrariada por ter sido desmentida em sua tese, perguntou-me sobre os perdedores de inúmeros campeonatos mundiais, e não errei nem sequer uma resposta: Holanda, Brasil, Suécia, Chile, Argentina, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;Tchecoslováquia&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teve uma noite de domingo que saí para a rua após o jantar. Estava gelado e eu tinha, como companhia, um rapazote com o mesmo nome que eu e outros dois meninos cujos nomes me esqueci. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;Sentamo&lt;/span&gt;-nos nos degraus do bar da esquina e iniciamos um violento jogo. Com um pedaço de pedra vermelha na mão, um de nós desenhava na calçada enquanto os outros precisavam adivinhar o que era desenhado. O &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;acertador&lt;/span&gt; ganhava o direito de perseguir os demais e distribuir &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;reiadas&lt;/span&gt; em quem encontrasse pela frente, isso até o menino desenhista gritar uma palavra chave – a partir de então os meninos fugitivos podiam espancar o outro menino até este alcançar um posto seguro. Isso nos divertiu por um tempo, mas o tédio retornou. Então alguém falou de uma rapariga que &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;fodia&lt;/span&gt; com qualquer um que a solicitasse. Um outro alguém sugeriu chamá-la e todos pareciam estar animados, até eu, embora tudo aquilo que me parecesse absurdo e doloroso: absurdo não apenas pela ausência de lógica no pensamento cunhado por nós – mas sobretudo pelo fato do sexo, ou a possibilidade do sexo, irromper com tanta violência e arbitrariedade. Então eu, que tinha saído de casa após o jantar apenas para conversar com os amigos, iria me deparar com o horror de estar nu (e a súbita, a horrível consciência do corpo magro e precário) diante de uma miúda também nua? Além disso, eu deveria extrair – de mim mesmo, do terror de meu corpo pubescente – um vigor, um apetite que ainda não gritava, que ainda não encerrava qualquer sentido ou agonia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ainda assim, segui os rapazes. Acabamos, em silêncio, diante de uma casa pobre (não me esqueço do muro esburacado, da mangueira no quintal e, ao fundo, de uma luz amarela e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;esmaecida&lt;/span&gt;). Um dos meninos pediu que os outros se afastassem, bateu palmas e conversou com um vulto. Depois veio até nós e disse agora é só esperar na esquina do bar. Nessa hora duvidei que alguma coisa aconteceria e fiquei espantado com a tristeza que apareceu em mim. Ainda me lembro do caminho de volta – as luzes fracas, a quietude do domingo, a noite gelada, os ventos finos e cortantes, o lento agitar dos galhos nas árvores, os vôos rasantes dos morcegos. Ficamos sentados nos degraus do bar por uma hora ou mais, sem falar nada, aturdidos pelo peso e depois pelo vazio de uma espera triste e inútil.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-1407424286781323379?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/1407424286781323379/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=1407424286781323379' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/1407424286781323379'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/1407424286781323379'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/10/os-nomes-dos-perdedores.html' title='os nomes dos perdedores'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-883702688255154193</id><published>2007-09-30T21:23:00.000-07:00</published><updated>2007-09-30T21:26:01.510-07:00</updated><title type='text'>chuvas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O primeiro dos muitos cursos preparatórios (para concursos) que &lt;span class="blsp-spelling-corrected" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;frequentei&lt;/span&gt; visava aprimorar os meus conhecimentos em informática. As aulas tiveram início logo após a chegada do horário de verão, o que me agradava bastante, pois saía da escola às sete da noite e ainda existia sol: uma luz cristalina, quase &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;diáfana&lt;/span&gt;, e ao respirar as brisas era possível antecipar o cheiro dos primeiros temporais do calor – aliás, quando parecia que ia chover e o céu ficava carregado, a luz ainda descia, irisada, por espaços entre as nuvens, mas depois essa mesma luz, ao ser devolvida às alturas, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;refletia&lt;/span&gt;-se nas nuvens e, até o anoitecer, pairava sobre a cidade uma claridade calma e esbatida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa sexta-feira caiu um temporal tão forte que não pude ir para casa após o término da aula. Fiquei na frente dos computadores, respondendo mensagens e lendo notícias, por trinta minutos ou mais. Quando saí, ainda havia restos de chuva (agora uma água suja, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;lamacenta&lt;/span&gt;) escorrendo por canos e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;dutos&lt;/span&gt; que saíam dos telhados e das marquises das lojas. Lembrei-me do natal em que ganhei o primeiro &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;videogame&lt;/span&gt;: na tarde recordada, tinha ido com o pai até o centro da cidade (não me lembro o motivo, talvez uma consulta ao dentista) e, quando estávamos na rua, começou a chover forte. Corremos e nos escondemos debaixo de uma marquise. Eu mal podia conter a ansiedade: queria voltar para a casa e enfrentar os mafiosos que tinham ocupado uma cidade dos anos 30 ou final da década de 20. O derradeiro confronto acontecia um cais e, apesar dos péssimos gráficos, eu podia sentir a salgada &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;umidade&lt;/span&gt; do ar, o chão de madeira rangendo após cada passo, e as gaivotas vindo e depois retornando à distância de um céu branco, chuvoso e triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou a chover e entrei no Senhor &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;Hambúrguer&lt;/span&gt;. Pedi um sanduíche e uma soda. Um menino gordo começou a aprontar o lanche e, da chapa de grelhar &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;hambúrgueres&lt;/span&gt;, ergueu-se um fumo que primeiro engordurou as paredes, depois ganhou as calçadas e então o cheiro de carne e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;bacon&lt;/span&gt; grelhados somou-se ao odor de chuva e lama. Quando terminei de comer, o temporal já tinha passado. Agora o maior desafio era evitar a água suja que as marquises despejavam na calçada. Tive nojo quando, descendo a Rua do General, pouco antes de cruzar a ponte, passei por quarteirões ocupados por prédios abandonados (pressenti os ratos nas sombras), pastelarias e pensões miseráveis. Começava o crepúsculo e, na fachada de um prédio de três andares, ardia, em letras de néon vermelho, a palavra &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;HTL&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cruzei a ponte – o rio era um fluxo de água &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;marrom&lt;/span&gt; e selvagem – e cheguei à rodoviária. Mais do que &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;úmido&lt;/span&gt;, o ar estava engordurado, sujo, viscoso. Em meio a uma névoa quase maciça de gás carbono, os &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;ônibus&lt;/span&gt; chegavam à estação, muitas pessoas corriam para não perder a viagem, no salão de cortar cabelo um negro com um &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;jaleco&lt;/span&gt; branco tinha um olhar &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;entediado&lt;/span&gt;, um cachorro grande e magro e machucado andava para lá e para cá e inspirava medo em alguns transeuntes. Também avistei, tomando um táxi, uma rapariga dos tempos da faculdade. Foi o bastante para que eu me lembrasse de tudo o que sabia sobre ela. Evoquei os olhos verdes, o comportamento tido como promíscuo, o assombro que tomava conta de mim quando conversávamos, o mistério que envolvia o apartamento que ela ocupava na Rua Sebastião (a poucos metros do cinema e quase em frente ao Senhor &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;Hambúrguer&lt;/span&gt;), o conto no qual eu a dizia que ela era bonita porque distante. E veio a &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;idéia&lt;/span&gt; de que tudo – o assombro, o mistério, o encanto da promiscuidade e da &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;distância&lt;/span&gt;, as ficções jamais consumadas – tinha fracassado.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-883702688255154193?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/883702688255154193/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=883702688255154193' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/883702688255154193'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/883702688255154193'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/09/chuvas.html' title='chuvas'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-1263872047480746575</id><published>2007-09-26T22:32:00.000-07:00</published><updated>2007-10-05T10:32:16.711-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='agosto'/><title type='text'>os planos A e B</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Cartago pediu uma cerveja mais escura e amarga e eu pedi uma cerveja normal. Dei o primeiro gole e veio uma náusea branda, quase imperceptível. Quis conversar sobre as meninas que pretendia ver à noite, mas continuei calado: começava a ficar ridículo falar de miúdas e das possibilidades de me entender com elas. Ainda assim, não deixei de mencionar um Plano A e um Plano B. O sábado era sem sol, quieto, e, do alto dos telhados, às vezes vinha um murmúrio – era o arrulhar ou o bater de asas de pássaros que alçavam &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;vôo&lt;/span&gt; ou pousavam. Estávamos junto ao balcão do cinema da Rua Sebastião, o público para a sessão das quatro horas não chegava e, além de nós e das mulheres que serviam a bebida, não havia mais ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram cinco horas quando o sol deixou de se esconder atrás das nuvens e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;projetou&lt;/span&gt; figuras no chão do &lt;em&gt;&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;hall&lt;/span&gt;.&lt;/em&gt; Ao cheiro de poeira e mármore juntou-se o de terra e esse odor, por vezes, lembrava pólvora. Pagamos as bebidas, saímos e tomamos o rumo do salão de bilhar da Rua Santiago. Cartago afirmava estar bêbado e andávamos devagar. Mais confiante, eu detalhava os rostos e olhos e ombros e os contornos do seios por trás dos planos A e B.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O salão de bilhar também estava vazio e pegamos uma mesa nos fundos. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;Fizemos&lt;/span&gt; alguns comentários sobre aquela que parecia ser a amante ou filha do sujeito que administrava o lugar. Logo depois essa menina saiu por uma porta que não tínhamos avistado e foi se sentar junto ao balcão, perto de onde o suposto amante ou pai jogava cartas com um bêbado conhecido. Depois chegou a prostituta de pele escura e que sempre usava um chapéu de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;crochê&lt;/span&gt;. Ela também sentou-se junto ao balcão, mas não pediu nada, apenas começou a conversar com a adolescente. Depois entrou um grupo formado por &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;rapazotes&lt;/span&gt; e raparigas (os meninos vestidos de negro, com camisetas t &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;shirt&lt;/span&gt; estampadas com fotos de bandas de rock, e as meninas com no máximo quinze anos de idade, a maioria acima do peso, e algumas, além dos trajes escuros, tinham as unhas pintadas de negro). Eles pegaram a mesa ao lado e, como não sabiam se posicionar, volta e meia esbarravam em mim e Cartago. O sol tinha sumido mais uma vez e uma penumbra quente e espessa caiu sobre o lugar. O administrador acendeu as luzes e também ligou o rádio e sintonizou numa estação que tocava &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;&lt;em&gt;rocks&lt;/em&gt;&lt;/span&gt; que tinham feito sucesso há dez anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o crepúsculo chegou sobre a cidade, passávamos no quarteirão do colégio onde havíamos estudado no final da década passada. Continuava igual, mas o lugar transformara-se na sede de um curso para enfermeiras. Até vimos algumas meninas de branco caminhando contra o lusco-fusco. O Pato, que ficava ao lado do velho colégio e que tinha abrigado as primeiras partidas de bilhar, era agora uma residência de dois andares. Corriam os últimos dias de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;agosto&lt;/span&gt; e, ao olhar para o telhado da casa do bispo e depois para a cúpula da catedral, soube que o calor tinha regressado (o vento quente e grosso a ponto de parecer imóvel levantava papéis abandonados nas calçadas, &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;revoadas&lt;/span&gt; de andorinhas invadiam as copas das árvores, dos gramados da praça vinha – ansioso e áspero e familiar – o odor de relva e de terra queimada que não se percebe nos dias frios, enquanto o azul do céu, em vez de empalidecer, escurecia cada vez mais).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cartago deixou-me em casa e combinamos que mais tarde sairíamos com o meu carro. Antes do banho, ainda liguei para um conhecido e falei da noite e dos planos A e B. Ele pareceu animado e indicou o endereço onde eu e Cartago poderíamos apanhá-lo mais tarde. Depois me lavei e saí de casa em seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O endereço indicado por Etrusco parecia um prédio abandonado. Apertamos a campainha e, passados alguns segundos, ouvimos um zumbido, depois um estalo, depois o portão abriu sozinho. O interior do prédio lembrava um desses pátios onde são deixados carros &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;imprestáveis&lt;/span&gt; ou apreendidos pelos bancos. Um muro alto e imundo demarcava o fim do terreno ao fundo e à esquerda, mas, à direita, havia uma parede também imunda. O chão estava coberto de papéis e folhas e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;recendia&lt;/span&gt; a uma sujeira acumulada por não sei quantos anos. Imersos na sombra, caminhamos rente à parede até um &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;retângulo&lt;/span&gt; de luz que, na verdade, era uma porta que dava para uma escada. Etrusco surgiu no último degrau e nós o seguimos até o interior de uma suja cozinha. Da cozinha passamos para uma sala onde, sentada num sofá, havia uma garota bastante magra. Ela estava descalça e trajava um vestido largo, velho e feio; o que me dava uma &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;idéia&lt;/span&gt; muito precisa de seu corpo. Ela fumava-falava bastante e o azul dos seus olhos irradiava uma promiscuidade cintilante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;Disse&lt;/span&gt; para Etrusco o nome da &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;chácara&lt;/span&gt; onde iríamos e ele afirmou que a garota nos acompanharia. No carro tive vergonha de falar dos planos A e B e segui em silêncio. Quando a avenida acabou e virou estrada, afundamos nas trevas e, à medida que acelerava o veículo e mirava as placas de sinalização, crescia um medo e uma excitação parecidos com que eu havia sentido ao conhecer a garota – ora risonha, ora entorpecida – que ia no banco de trás. Às vezes eu olhava pela janela e percebia que, no extremo horizonte, as sombras &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;esmaeciam&lt;/span&gt; ou eram recortadas por silhuetas de árvores e morros ainda mais escuros. Entrei com o carro no posto de gasolina onde Etrusco trabalhava e que, devido a uma incrível coincidência, ficava bem na frente da &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;chácara&lt;/span&gt;, bastava atravessar a pista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após estacionar o veículo debaixo de uma árvore onde cresciam algumas flores (pétalas brancas e roxas e amarelas), caminhamos – sob uma luz branca e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;fantasmagórica&lt;/span&gt; – por um posto habitado apenas por &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_19"&gt;carrocerias&lt;/span&gt; de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_20"&gt;caminhões&lt;/span&gt; e esqueletos de carros e bombas de combustível (algumas &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_21"&gt;imprestáveis&lt;/span&gt;; muito forte o cheiro de ferrugem e gasolina) e gatos e cães. Quando a luz acabou, perto do acostamento, quase caímos barranco abaixo (a menina de vestido precisou apoiar-se em Cartago). Na estrada, os carros passavam muito velozes e muito próximos e, enquanto atravessamos a pista correndo, respirei o forte cheiro que me ganhava o rosto – era o cheiro de mato, terra e asfalto, um odor bem mais ávido do que o provara ao anoitecer, enquanto caminhava pela Praça da Catedral. Ainda olhei para o horizonte, vi as estrelas gordas, depois as luzes da cidade aos meus pés, e pensei que talvez não existam dias alegres: talvez seja possível apenas falar em dias bonitos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-1263872047480746575?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/1263872047480746575/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=1263872047480746575' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/1263872047480746575'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/1263872047480746575'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/09/os-planos-e-b.html' title='os planos A e B'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-4867455592553831297</id><published>2007-09-22T23:33:00.000-07:00</published><updated>2007-09-22T23:36:50.198-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='jasmineiros'/><title type='text'>i want you</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Com o dinheiro que recebemos após a morte da avó compramos um computador novo. O outro já contava com mais de dez anos e servia apenas para escrever: pesquisar na rede, ouvir uma música, assistir a um vídeo – tudo isso era impossível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O computador novo – que não seria apenas meu, como o velho, mas de toda a família – ficaria no quarto antes ocupado pela avó. No processo de limpeza,  doamos a cama a um asilo e pintamos as paredes de branco (lembro-me das tardes de sol e do cheiro de tinta e do esforço em trazer aquele &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;cômodo&lt;/span&gt; de volta à realidade dos vivos, e quando penso nisso, hoje, acredito que a morte – ou a sua presença – cria lugares dentro do quais é possível encontrar abrigo e depois, quando esses lugares desaparecem ou tornam-se ordinários, o que vem é algo como uma &lt;em&gt;nostalgia da morte&lt;/em&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o computador novo, a minha primeira resolução foi baixar, da rede, discos que julgava importantes. Em apenas um mês, gravei mais de dez discos, e os que mais me agradaram foram &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;Highway&lt;/span&gt; 61 e &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;Blonde&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;on&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;Blonde&lt;/span&gt;. Também descobri as rádios que transmitiam via &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;internet&lt;/span&gt; e, quando não escutava &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;Bob&lt;/span&gt; Dylan, sintonizava em estações de lugares como Ohio, Novo México, Califórnia. Gostava, sobretudo, quando a voz do locutor interrompia as canções ou lia algum anúncio para a população local. Nessas horas tinha &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;idéias&lt;/span&gt; desconexas: era como encontrar um elo físico com as telas de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;Hopper&lt;/span&gt; e as andanças de Sal &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;Paradise&lt;/span&gt; e as miúdas (pois lia &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;Faulkner&lt;/span&gt;-&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;Chandler&lt;/span&gt;-&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_13"&gt;Kerouac&lt;/span&gt;-&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_14"&gt;Carver&lt;/span&gt; em traduções para o português de Portugal) à espera dos forasteiros e, à margem das estradas, criando &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_15"&gt;torvelinhos&lt;/span&gt; de poeira vermelha e despenteando &lt;span class="blsp-spelling-corrected" id="SPELLING_ERROR_16"&gt;árvores&lt;/span&gt; e pessoas, o vento do deserto. Sabia que à noite esse vento perverso soprava &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_17"&gt;Sunset&lt;/span&gt; Boulevard acima, e, para um rapazote &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_18"&gt;afobado&lt;/span&gt; como eu, tudo se resumia em encontrar uma boa &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_19"&gt;foda&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, por mais que sintonizasse rádios do Texas ou ouvisse Dylan cantando i &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_20"&gt;want&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_21"&gt;you&lt;/span&gt;, nenhuma menina surgiu naquelas semanas. Quando me cansava do computador, saía para dar uma volta pela cidade. Num desses passeios descobri as ruas arborizadas e desertas perto do hospital onde a avó tinha morrido. O que mais gostava, nessas ruas, era o silêncio, a completa ausência de carros e de gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi apenas no começo de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_22"&gt;dezembro&lt;/span&gt; que descobri o quanto estava atordoado. Creio que começou quando, ao passar o ano em revista, percebi que eu tinha sido um completo fracasso: ainda estava sem emprego e, mais do que isso, tinha tido um desempenho sofrível em todos os concursos prestados. Como se isso não bastasse, gastara um tempo monstruoso lendo e escrevendo e descobrir isso, naqueles primeiros dias de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_23"&gt;dezembro&lt;/span&gt;, fez com que viesse à tona uma profunda repugnância por mim mesmo. Assim assim, mantive a rotina dos últimos meses, mas com uma diferença: agora, talvez devido ao vício num estranho refrigerante feito de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_24"&gt;guaraná&lt;/span&gt; e maçã, tinha problemas urinários e ia dormir cada vez mais tarde.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aliás, o plano para se livrar do mal-estar era simples: esperar a segunda quinzena do mês, época na qual o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_25"&gt;comércio&lt;/span&gt; fica aberto durante a noite. Julgava que uma série de passeios &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_26"&gt;noturnos&lt;/span&gt; (e no final do mês as festas em família) acalmaria o meu espírito. Até me lembro da primeira dessas caminhadas, no dia 16 ou 17 de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_27"&gt;dezembro&lt;/span&gt;. Peguei a rua da Praça dos Gatos e caminhei, sem desvios, até o C&lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_28"&gt;alçadão&lt;/span&gt; da Rua do General. Lembro-me que no caminho vi uma garota muito bonita: pele clara, cabelos à altura do pescoço, seios como pequenas laranjas, um corpo magro e o ar espiritual que imaginava nas meninas que deviam ouvir as mesmas músicas que eu. Mas ela me dirigiu uma olhar assustado e virou uma esquina. Logo depois cheguei à Rua do General e tomei um desvio para chegar até a Praça do Teatro através da Rua Duque de Caxias: quarteirões tomados por prostitutas e viciados e lojas que vendiam velas e quadros ridículos e inscrições para sepulturas. Na Praça do Teatro, ao passar diante do chafariz, senti o ar mais &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_29"&gt;úmido&lt;/span&gt; e tangível e mais uma vez (agora já no rumo do cinema da Rua São &lt;span class="blsp-spelling-corrected" id="SPELLING_ERROR_30"&gt;Sebastião&lt;/span&gt;, onde é possível tomar cerveja junto ao balcão de mármore, e mais além, rumo às luzes que piscavam no prédio da Associação Comercial, e depois rumo à parte residencial do centro, repleta de ruas escuras e silenciosas e arborizadas, com prédios do tamanho de torres em ambos os lados da calçada) acreditei que, cedo ou tarde, encontraria o vento do deserto e o perfume dos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_31"&gt;jasmineiros&lt;/span&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-4867455592553831297?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/4867455592553831297/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=4867455592553831297' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/4867455592553831297'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/4867455592553831297'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/09/i-want-you.html' title='i want you'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-1593671434326756427</id><published>2007-09-19T17:20:00.000-07:00</published><updated>2007-10-09T07:31:03.270-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='dezembro'/><title type='text'>blow up</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Pedro sofreu o acidente que o deixou coxo em &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;dezembro&lt;/span&gt;, e a sua esposa, se me recordo bem, teve machucados ainda mais horríveis. Portanto o natal foi pouco comemorado: após uma ceia breve e saudações à meia-noite, todos foram dormir. Eu estava sem sono e pensei em pegar o carro e dar uma volta pela cidade, talvez ir até o Radio City.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tarde seguinte liguei para um amigo e combinamos de nos encontrar no salão de bilhar. Assim que iniciamos a disputa, começou a chover. Junto ao balcão, o homem que administrava o lugar jogava um estranho jogo de cartas com outro sujeito. Às vezes esse outro sujeito gritava. Perto deles, comendo de um prato que &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;recendia&lt;/span&gt; a gordura antiga, estava sentada uma adolescente – rosto claro ungido pelo suor e pela gordura que se emanava da chapa de grelhar &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;hambúrgueres&lt;/span&gt;, os seios salientes (talvez &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;engordurados&lt;/span&gt; também) sob o fino tecido da blusa, cabelos à altura do pescoço. À medida que a chuva ficava mais forte, a madeira dos tacos tornava-se pegajosa e não conseguimos nos divertir. Antes do crepúsculo eu já tinha voltado para casa e, quando a noite começou a chegar e parou de chover, veio, dos fundos, um cheiro de bananeiras molhadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos dias que se seguiram, eu e Cartago voltamos a perambular pela cidade velha. As lojas – após a alegria &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;natalina&lt;/span&gt; – estavam todas fechadas. A prefeitura ainda não tinha dado início aos trabalhos de limpeza, e as ruas encontravam-se atulhadas de papel picado e jornais de propaganda. Chovia forte quase todas as tardes, mas depois vinha o sol, e ascendia um &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;mormaço&lt;/span&gt; doente e preguiçoso. A impressão que se tinha era de que a água estava estagnada há não sei quantas semanas e por isso apodrecera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na última tarde do ano também vagamos pelo centro: primeiro uma caminhada pelas ruas quietas e ensolaradas (aqui e ali explodiam bombas, e ao &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;mormaço&lt;/span&gt; fundia-se o cheiro de pólvora), depois algumas partidas no salão de bilhar e por fim uma visita ao &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;&lt;em&gt;shopping&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;, que tinha todas as lojas fechadas e, na praça de alimentação, as cadeiras empilhadas. Era a última sessão de cinema do ano e havia poucas pessoas na sala de exibição. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;Sentámo&lt;/span&gt;-nos e, enquanto esperávamos o filme, vimos chegar um grupo formado por uma mulher e duas raparigas de quinze ou &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;dezesseis&lt;/span&gt; anos. As meninas não pareciam ser irmãs ou primas – o tom da pele, a cor dos cabelos, os ossos do rosto, as sombras ao redor dos olhos, os gestos: nada indicava parentesco e o único aspecto que tinham em comum era uma magreza desengonçada (era como se o silêncio e a melancolia – uma tristeza apenas adivinhada, apenas imaginada – tornassem o ar mais espesso ou rarefeito; como se as duas meninas, ou melhor, como se os seus dois corpos magros ainda não estivessem acostumados a variações na densidade das horas).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando saímos do &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;cinema&lt;/span&gt; e ganhamos a rua, o crepúsculo ia pela metade. Tinha sido uma tarde sem chuvas e um sopro quente varria os papéis e as copas das árvores. Bombas ainda explodiam aqui e ali (agora com mais frequência). Do alto dos postes descia uma luz que, misturada à poeira do entardecer, assumia um tom alaranjando, enquanto o céu poente oscilava entre matizes pálidos e de um azul muito escuro. Por quase uma quadra, a mulher e as meninas caminharam diante de nós, e durante todo o tempo tivemos a impressão (agora também em relação à mulher) de magreza destroçada, aniquilada. Era como olhar para o retrato de alguém – um retrato tirado durante um momento de introspecção – e adivinhar uma morte triste, talvez por suicídio.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-1593671434326756427?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/1593671434326756427/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=1593671434326756427' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/1593671434326756427'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/1593671434326756427'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/09/blow-up.html' title='blow up'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-7375657935026837804</id><published>2007-09-18T00:21:00.000-07:00</published><updated>2007-09-19T17:26:05.256-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Santa Ana'/><title type='text'>moonlight serenade</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Naquela noite soprava o vento seco do deserto, o Santa Ana, quente e seco, que desce pelos &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;desfiladeiros&lt;/span&gt; e despenteia as pessoas, irritando-lhes a pele do rosto e dilacerando-lhe os nervos.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Assim inicia &lt;em&gt;O Cheiro do Medo&lt;/em&gt;, novela de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;Raymond&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;Chandler&lt;/span&gt;, e gosto de que pensar que por aqui, distante do Mojave, também sopra o&lt;em&gt; Santa Ana.&lt;/em&gt; Lembro-me de uma noite – eu tinha quinze ou &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;dezesseis&lt;/span&gt; anos, era sexta de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;carnaval&lt;/span&gt; – na qual andei os poucos quarteirões que separavam a minha casa da quadra de futebol do Senhor José. Sentia-me ridículo por jogar bola numa noite que seria festejada pela maioria dos rapazes da minha idade. A partida estava marcada para as nove horas e no trajeto não avistei nem sequer uma pessoa. A luz que descia dos postes (uma claridade branca e fina) não penetrava nas sombras e nas copas das árvores. Das paredes das casas e do asfalto irradiava-se um hálito quente, nervoso – como se um único sopro devolvesse à noite o calor e o cheiro de sol que as pedras tinham armazenado durante o dia.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-7375657935026837804?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/7375657935026837804/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=7375657935026837804' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/7375657935026837804'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/7375657935026837804'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/09/moonlight-serenade.html' title='moonlight serenade'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-3137026006638698965</id><published>2007-09-16T21:51:00.000-07:00</published><updated>2007-09-16T21:56:03.220-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='morte da avó'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='brisas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira semana de outubro'/><title type='text'>mortes</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Após o jantar, liguei o computador e escrevi durante umas duas horas seguidas. Apesar de ser ruim passar as noites de sábado em casa, não havia tristeza ou ansiedade: no sábado da semana anterior eu tinha ido a uma festa e tinha conversado com uma bonita rapariga e tinha bebido cervejas e tinha reencontrado dois sujeitos – um deles estudara comigo em 1997-98, o outro fora meu colega durante o único semestre em que estive na faculdade de cinema, há oito anos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Cansado de escrever, fui para a sala e liguei a televisão. Deviam ser dez horas e eu ainda não tomara banho. Corria a primeira semana de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_0"&gt;outubro&lt;/span&gt; e fazia calor, mas um calor que não chegava a ser repulsivo, pois soprava uma brisa amena e familiar (como se a brisa, antes de chegar até mim, tivesse percorrido uma cidade calma e esvaziada, povoada apenas por uma memória que não era, propriamente, memória – apenas sabia, e era um saber muito vago, quase imaginado, que sob aquela brisa eu já tinha vivido &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_1"&gt;natais&lt;/span&gt;, e jogado futebol, e andado pelas ruas da cidade velha até o salão de bilhar da rua &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_2"&gt;santiago&lt;/span&gt;, e gostado muito de alguém).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando a mãe passou por mim, perguntou se eu tinha ido ver a avó. Respondi que não. A mãe desapareceu e voltou logo depois. &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_3"&gt;Disse&lt;/span&gt;-me que a avó estava tendo uma crise de gastrite e pediu que eu a olhasse enquanto ela e o pai se preparavam para levá-la até o hospital. Encontrei a avó na varanda. Sentei-me perto dela e, com um ramo de &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_4"&gt;samambaia&lt;/span&gt; seca, comecei a brincar com um gato. Até fiz algum comentário sobre o animal. Notei que a avó, com um jornal na mão, mal conseguia se ventilar – tomei o jornal de suas mãos e fiz vento. Poucos minutos depois eu e a mãe amparamos a avó em sua caminhada até o carro.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt; Solitário em casa, voltei à &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_5"&gt;tevê&lt;/span&gt; e terminei de assistir o programa que via antes de acudir a avó. Depois comecei a recolher os gatos. O mais difícil de todos – o Pequeno – não demorou a ser capturado, mas Joaquim estava sumido. Procurei em todos os &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_6"&gt;cômodos&lt;/span&gt; possíveis e, após vasculhar o quintal da frente, fui para os fundos. Sentei-me perto da piscina. Quando &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_7"&gt;ventava&lt;/span&gt; mais forte, era possível escutar o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_8"&gt;farfalhar&lt;/span&gt; das bananeiras. Um morcego deu um &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_9"&gt;vôo&lt;/span&gt; raso sobre a face das águas e desapareceu na copa da mangueira (um dos vizinhos tinha, nos fundos da sua casa, um pomar). Lembrei-me das noites em que perseguia os gatos pelos telhados -  muitas vezes, após apanhá-los, escondia-me em alguma sombra mais densa, ora observando a vida alheia, ora mirando os prédios da cidade velha (o topo dos edifícios envoltos por uma neblina-transparência rósea). Até quis passar o resto da noite no alto dos telhados, mas um miado fraco, vindo de um terreno vizinho (então um canteiro de obras) acusou o paradeiro de Joaquim. Apesar de antes já ter saltado na construção para apanhar um animal, era a primeira vez que pulava aqueles muros sozinho, sem que ninguém me ajudasse a subir de volta. Para a minha surpresa, os &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_10"&gt;atos&lt;/span&gt; &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_11"&gt;sairam&lt;/span&gt; conforme o &lt;span class="blsp-spelling-error" id="SPELLING_ERROR_12"&gt;planejado&lt;/span&gt;: após cair na construção escura e vazia, capturei o gato e o ergui até o muro (Joaquim fez o resto), depois tomei uma distância de sete ou oito metros e lancei-me numa corrida até o muro. Era o que precisava para alcançar a velocidade que me daria o impulso necessário para escalar. Enquanto corria, tive muito medo de pisar num prego enferrujado.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-3137026006638698965?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/3137026006638698965/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=3137026006638698965' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/3137026006638698965'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/3137026006638698965'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/09/mortes.html' title='mortes'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-5730874151872181404</id><published>2007-09-13T20:46:00.000-07:00</published><updated>2007-09-14T06:37:17.983-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='gatos'/><title type='text'>gatos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Pequeno foi o primeiro gato que persegui pelos telhados. Lembro-me que as buscas tiveram início há seis ou sete anos, durante as férias de janeiro. Por volta da meia-noite, como saía pouco de casa, reunia-me com os meus pais para uma partida de baralho, mas antes eu deveria ajudar a avó, que vivia na casa ao lado, a recolher os gatos. Começava a procurá-los por volta das dez horas e o Pequeno – o mais ágil e arisco – era o último a ser pego.&lt;br /&gt;Às vezes, quando estava no telhado, sentia o vento me gastar o rosto e pensava em amores desperdiçados e em lugares nunca conhecidos – como as sombras e a maresia da Havana de Hemingway. Em muitas noites os ventos traziam gritos de bêbados e melodias abafadas pela distância. Entristecia, mas era uma tristeza impregnada de nostalgia, pois também existia o medo de morrer, de perder aquela casa e aquelas madrugadas e aqueles rostos e a sensação de perseguir os gatos pelos telhados.&lt;br /&gt;Depois disso, durante cerca de um ano, tornou-se rotina capturar os gatos antes de ir dormir. Na verdade, nunca deixei de zelar por eles; apenas, com o passar dos anos assumi uma posição acima na hierarquia: que a avó e a mãe guardassem os animais mansos, eu entrava em cena quando algum felino demorava mais a vir ou fugia pelos telhados e recusava-se a descer.&lt;br /&gt;Lembro-me de setembro de dois anos atrás. Um gato de pêlo loiro não voltou durante a madrugada. Embora incomum, não estranhei a ausência e só fui me preocupar no dia seguinte. Ainda durante a tarde, passei horas no telhado, chamando o animal e observando qualquer sombra que se movesse. Também vaguei pelos quarteirões da vizinhança, sempre de olho nos telhados. Após o entardecer chegou a notícia de que o cadáver de um animal fora abandonado em meio aos sacos de lixo que se amontoavam nos fundos da Igreja Coração de Maria. Eu e o pai reviramos o lixo, mas não encontramos o animal. Passei quase toda a noite no telhado. Depois, no começo da madrugada, saí para andar pelo bairro. A poeira acumulada pela seca que durava há semanas tinha formado uma neblina amarela, e esta névoa pardacenta tinha o efeito de esmaecer a luz (também amarela) emanada pelos postes. Nos quarteirões ao redor da praça topei com velhos, prostitutas, travestis. Quando vi os homens que recolhem o lixo, fui até eles. Disseram-me que, horas atrás, tinham recolhido o corpo de um gato de pêlo avermelhado. “É um gato gordo, a cabeça estava estourada, parecia esmagada por um carro ou ônibus.” No caminho de volta para casa, quis chorar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na tarde do terceiro dia o gato apareceu nos telhados. Eu e a irmã começamos a gritar. Depois que pegamos o animal, o mantivemos em cativeiro por duas semanas. Após as refeições ele era levado até o quintal, para urinar ou respirar ar puro, e um de nós era incumbido de vigiá-lo. Estávamos alegres e não podíamos deixar aquela existência rediviva e irracional e precária – ato supremo da bondade de deus ou do universo – esgueirar-se pelos telhados e desaparecer.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-5730874151872181404?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/5730874151872181404/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=5730874151872181404' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/5730874151872181404'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/5730874151872181404'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/09/gatos.html' title='gatos'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-5775715142069372327</id><published>2007-09-12T15:11:00.000-07:00</published><updated>2007-09-13T20:48:14.921-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='morte de animais'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='bizâncio'/><title type='text'>velejando para bizâncio</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Eu voltava para casa quando, devido às obras na Avenida Bizâncio (eu dirigia com sono e o brilho silencioso-fluorescente-alaranjado dos cones que margeavam o canteiro de obras assumiram, para mim, a materialização da minha insônia ou sonambulismo) fui obrigado a tomar um desvio que me lançou nas ruas de um bairro que me era desconhecido.&lt;br /&gt;Na madrugada seguinte, assim que pus o veículo em movimento, lembrei a mim mesmo que deveria evitar a Avenida Bizâncio. Mas o sonambulismo habitual apagou qualquer resolução de buscar um caminho alternativo. Quando me dei conta, estava diante do peremptório e silencioso brilho do cones. Tomei o desvio, mas desta vez prestei atenção no bairro que visitava. Todas as casas tinham dois andares e, na frente de cada residência, havia um árvore. Lembrei-me de quando era menino e ultrapassava, em busca de marcas de cigarros, as fronteiras impostas por meus pais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na noite seguinte, fui ridículo. Ao ligar o carro, repeti a necessidade de evitar Bizâncio, mas sabia que confabulava em segredo, sabia que voltaria às obras e ao desvio, e desta vez não seria levado pelo sonambulismo. E, enquanto cruzava as ruas do bairro, o que brotou em mim foi algo distinto do medo ou da excitação: era como ter consciência (um sobressalto íntimo e gelado e viscoso) do tempo. Pensei no que vivia, no que acontecia comigo: estava às vésperas de uma prova importante, e, durante a preparação, eu alternara entre uma insegurança repleta de agonia e a certeza de estar aproveitando a maior chance que já me fora dada. Além disso, vivia um calmo relacionamento amoroso, mas também a consciência do amor era atingida no nervo. Em outras palavras, eu me via diante da alegria, mas isso não impedia que a alegria se apresentasse repleta de elipses, de lacunas. E quanto mais vida eu poderia oferecer a esta alegria? Quanto mais me seria oferecido? Quanto tempo antes das obras terminarem e o desvio ser riscado da existência da cidade? Quanto tempo antes da morte de um animal ou de uma pessoa amada?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-5775715142069372327?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/5775715142069372327/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=5775715142069372327' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/5775715142069372327'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/5775715142069372327'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/09/velejando-para-bizncio.html' title='velejando para bizâncio'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-4210403362817854062</id><published>2007-09-10T23:37:00.000-07:00</published><updated>2007-09-10T23:41:58.708-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='cinema da rua são sebastião'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='senhor hambúrguer'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='garotas perdidas'/><title type='text'>mais notas sobre o estio</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;     Nunca soube por que o Senhor Hambúrguer ficava aberto durante as noites. Lembro-me de que numa sexta eu e Arkansas jantávamos antes de seguirmos para o cinema da Rua São Sebastião. Todas as outras mesas estavam vazias e a luz que descia – uma claridade branca e onipresente, que não permitia que qualquer recanto do estabelecimento se ocultasse nas sombras – era, a um só tempo, doce e alheia.&lt;br /&gt;     Após o jantar, andamos os poucos quarteirões que separavam o Senhor Hambúrguer do cinema. No caminho encontramos uma menina de olhos esverdeados (mas que sob a luz amarela irradiada pelos postes assumiam um brilho crepuscular), ombros magros, pele clara e cabelos ondulados. Ela riu para Arkansas e conversaram por alguns minutos. Depois que ela foi embora, Arkansas disse-me uma das frases que consagrou aquele verão às garotas perdidas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;     “Sabe esta miúda? Fui apaixonado por ela há seis ou sete anos”&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-4210403362817854062?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/4210403362817854062/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=4210403362817854062' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/4210403362817854062'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/4210403362817854062'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/09/mais-notas-sobre-o-estio.html' title='mais notas sobre o estio'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7488716786263929205.post-4182353137932939887</id><published>2007-09-10T09:49:00.000-07:00</published><updated>2007-09-11T10:52:42.845-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='trio los panchos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='leonard cohen'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='estio'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='gordura podre'/><title type='text'>estio</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Lembro-me de quando escrevia poemas e dos sábados em que caminhava até as ruas do centro e gastava as tardes jogando sinuca. Voltava para casa às sete ou oito horas da noite. Como era março – e como naquele ano o final do verão foi marcado pela ausência de chuvas – eu caminhava sob um entardecer. No ar poeirento e com cheiro de sol antigo e terra queimada, à medida que eu cruzava os quarteirões da cidade velha, um fedor de gordura podre ganhava o meu rosto. Passava as noites de sábado em casa e escrevia sobre isso: a agonia das samambaias no tempo seco. Às vezes ouvia Trio Los Panchos ou Leonard Cohen.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7488716786263929205-4182353137932939887?l=setembroemmontevideu.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/feeds/4182353137932939887/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7488716786263929205&amp;postID=4182353137932939887' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/4182353137932939887'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7488716786263929205/posts/default/4182353137932939887'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://setembroemmontevideu.blogspot.com/2007/09/estio.html' title='estio'/><author><name>mississipi</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00625206833863482545</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
